A uma equipa de futebol, uma boa preparação espiritual só traria vantagens. Além do suplemento motivacional, o que não se pouparia em advertências e expulsões, em cartões amarelos e vermelhos.
A espiritualidade abastece a pessoa de autodomínio, moderando os excessos. Ela dispensa, por exemplo, o arremesso de remessas homéricas de arroz para cima de esposos recém-casados.
A espiritualidade desponta por dentro, mas os seus efeitos veem-se por fora.
Sinais de uma vida espiritual ativa: falar pouco, baixo e devagar; não interromper os outros; não gesticular muito; andar e conduzir sem pressa; evitar protestos ruidosos e não transbordar em folguedos barulhentos.
Hoje em dia, abundam festas programadas para todas as horas. As pessoas explodem de euforia. Mas, lá no fundo, são orfãs de alegria e rapidamente se instalam na depressão e na melancolia.
Até a muitas celebrações litúrgicas falta densidade espiritual. Parece que, se não lhes sobrepuserem «músicas pop» e textos melosos, os cerimoniais ficam menos vistosos.
Dá a impressão de que a aparência importa mais do que a vivência. Pelo que não admira – embora preocupe – que alguns sacramentos sejam encarados como meros eventos.
O que fica marcado por muito ruído é geralmente pouco vivido. E nem sempre o que acontece no plano eclesial revela a esperada espessura espiritual.
Esquecemos que o mais simples é o mais belo. E que, num sorriso leve e acolhedor, transparece maior felicidade do que num espetáculo interminável e gastador.
Não é preciso ser muito efusivo para transluzir o que, em si mesmo, é difusivo. Se a alegria está em nós, será necessário fantasiá-la fora de nós?
A espiritualidade – aconchegada pelo silêncio da contemplação – exercita o comedimento e a contenção.
É óbvio que a espiritualidade não extingue os ímpetos, mas estabiliza quem os sente. É por isso que ela fomenta a mansidão e a paz.
A pessoa que habita no silêncio não agride, não difama, não ameaça, não pega em armas; enfim, não constitui um perigo.
A esta luz, as nossas decisões deviam brotar mais do silêncio do que das palavras. Ou, então, deviam germinar em palavras fertilizadas pelo silêncio.
Porque é que nos encontramos, quase sempre, para uma «troca de palavras»? Que bem faria que nos encontrássemos também – e bastante – para uma «troca de silêncios».
Nenhuma guerra foi declarada em silêncio. E nenhuma paz está garantida com uma mera transação de palavras.
Onde impera o silêncio, não prospera o destempero. Pode haver sofrimento, mas sem revolta. Pode surgir o contentamento, mas sem excitação. Não esvaziemos os «ginásios espirituais». Além da forma física, não descuremos a saúde espiritual.
Porventura, não é preciso empreender cem dias sem falar, como faziam São Romualdo e os seus discípulos. Mas reativar – e não apenas visitar – alguns eremitérios será uma opção saudável.
O silêncio não querela, não pleiteia, não julga, não preconceitua, não impõe, não arrasa.
Talvez o melhor seja começar a habitar mais no silêncio!