Está quase a iniciar-se mais um ano letivo. Mais um ciclo se inicia. A Escola é um espaço de esperança e desenvolvimento. As crianças e os pais entram numa correria para preparar o ano letivo e cumprir os objetivos. Cada vez há mais pressão, e cada vez mais cedo, para as crianças “aprenderem mais”, “estudarem mais”, diz-se, em nome do futuro. Nesta azafama, as escolas, os diretores, os professores, os pais, colocam cada vez mais peso nas competências, nos resultados, nas avaliações, mas todos se esquecem de um aspeto importante: há aprendizagens essenciais que não cabem numa grelha de avaliação ou num manual.
Um local fundamental para aprender é o recreio. Uma criança precisa de movimento. Precisa de saltar, experimentar, perder, ganhar, discutir, construir regras sociais e, algumas vezes, meter o pé na poça. Na verdade, uma criança precisa de brincar, precisa de sonhar. Quando uma criança joga, cria um cenário onde pode experimentar a vida, em pequena escala, e sem grandes riscos. No jogo, estão desafios, regras, adversários, companheiros, socialização, consequências. Há decisões, tentativas e facilmente aprende que os outros também existem. Aprende a decidir e que nem tudo está sobre o seu controlo. Por isso é que o jogo e a brincadeira são tão importantes para a formação de um individuo.
No entanto, insistimos em não lhes proporcionar as condições para esta concretização essencial, fundamentalmente porque não se criam espaços para esse efeito (basta olhar para os recreios das escolas do 1º ciclo), porque cada vez mais fechamos os miúdos em apartamentos herméticos, porque não os deixamos ter a responsabilidade das suas ações (proteção parental desmedida) mas, também porque a infância está cada vez mais organizada pelos adultos, e mais grave, à sua própria imagem…
Para mim, enquanto professor de Educação Física, é triste ver que é necessário alguém diga a uma criança como deve brincar. É preocupante ver o tempo destinado aos écrans, ocupando o espaço que deveria pertencer ao movimento, ao social, ao recreativo.
Na minha disciplina, existe um dado técnico muito importante, que é o “tempo potencial de aprendizagem”. Ou seja, o tempo máximo de oportunidade que um exercício/aula proporciona para aprender ou consolidar os conteúdos. É um dado muito importante. E aquilo que é um facto, é que num recreio o tempo potencial de aprendizagem é… máximo! É o tempo de saltar, correr, rir, cair, inventar, fazer amigos, resolver conflitos, criar soluções, o respeito pelas regras, ter a coragem de experimentar, a da autonomia. É tempo de ser criança!
A brincadeira não é tempo perdido, é tempo de crescimento. Porque estamos a falar das tais competências que sustentam a criança muito para além dos manuais, das explicações e das atividades extracurriculares.