O presente mito é, em grande parte, fruto de se projetar para o Século III – justamente um período em que tal falsidade começa a poder ser mais facilmente desmontada – um conjunto de preconceitos anticristãos e anticatólicos derivados da (in)voluntária incompreensão acerca da, por vezes difícil, relação entre, de um lado, a fé cristã e, do outro lado, as ciências e a vida intelectual mais ampla.
Ocorre, porém, que se trata de uma realidade que, como já disse de passagem, é facilmente desmontável, por mais que o alcance popular da mesma seja incomparavelmente superior ao que estas palavras lograrão.
Dito isto, recorde-se, desde logo, que se é difícil falar, a respeito deste século, em “ciência” como esta passou a ser entendida e definida na Modernidade, não é impróprio referir-se, nesse contexto cronológico, a âmbitos do saber que algumas “ciências” passaram a abordar, mais tarde e com outros métodos.
Senão vejamos: Orígenes de Alexandria, insigne membro e dirigente da escola catequético-teológica de Alexandrina (transferida, depois e em parte, para Cesareia Marítima), encetou: um fecundo diálogo com as mais importantes escolas filosóficas do seu tempo; um importante ensino de lógica, do estudo do cosmos e da análise da natureza (tocando em temas hoje abarcados pela geografia e a análise de materiais e seres vivos); e um relevante trabalho de Arqueologia, Filologia e Crítica Textual na sua “Hexapla” (traduzido será algo como “Feito em Seis”) – obra justamente em seis colunas, composta entre 235 e 245, com: o Antigo Testamento em hebraico; a transliteração daquele em letras gregas; a tradução da LXX; e três outras traduções feitas após o surgir da era cristã.
Também Júlio Africano, pessoa relativamente contemporânea de Orígenes, escreveu uma das primeiras cronologias universais cristãs (em que procurou traçar toda a história da humanidade desde a Criação até cerca de 221 d.C.) manifestando, assim, interesse em, e bom domínio de Cronologia, História, Geografia e Astronomia.
Embora menos atestados historicamente, não é aceitável não fazer referência a Cosme e a seu irmão Damião, que foram médicos e exerciam a Medicina gratuitamente como forma indireta de evangelizarem pagãos e fortalecerem na fé cristãos, a partir de uma área do saber acerca da qual, e contra alguns receios que ainda hoje persistem, a Bíblia refere que se deve consultar o médico e aceitar com respeito o seu trabalho como dom divino (conferir Sir. 38,1-15).
Por fim, gostaria de fazer uma breve referência a Clemente de Alexandria (que precedeu Orígenes como responsável da mencionada escola catequético-teológica) e Tertuliano de Cartago como grandes conhecedores das, e dialogantes com as principiantes correntes filosóficas a eles coevas (o primeiro de modo mais empático, o segundo de uma forma mais reservada) e sobretudo Anatólio de Laodiceia.
Este último é, quiçá, o exemplo mais emblemático de um “cientista” cristão do Século III. Ele, efetivamente, e na linha de um menos douto Dionísio de Alexandria, produziu obras salientes nas áreas da Filosofia, da Matemática e da Astronomia, por ele usadas, por exemplo, no cálculo matemático-astronómico de quando é que, em diferentes anos, seria a data da Páscoa.