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O que faz que uma oração seja eucarística? (10)

​A oração eucarística é o momento mais importante da missa, mas também é o momento que os fiéis costumam sentir como mais difícil. O que é o cume da vida cristã é experimentado muitas vezes como um vazio para a inteligência. Isto não quer dizer que não haja muitos fiéis que vivem este momento com intensidade. Eucaristia equivale a ação de graças, mas entremeada de intercessões um pouco complicadas – do Espírito Santo, pelos vivos, pelos defuntos, pelos participantes. E o facto de as orações eucarísticas serem quase sempre as mesmas e que o texto pouco ou nada varie,«provoca um certo cansaço». (Chauvet, o.c., pp 78-79) Apesar da boa vontade que se tenha, custa não perder o interesse, sobretudo se o presidente parecer alheio ao que está a dizer.

​Da compreensão teológica do que constitui a oração eucarística depende a saúde da fé cristã na nossa cultura pós-moderna.

​Fazendo um pouco de história, podemos afirmar que as nossas orações eucarísticas têm a sua fonte primeira nas orações que os judeus pronunciavam na mesa. A oração de Jesus era a tripla oração judaica que se pronunciava na mesa: a) bênção pela criação; b) ação de graças pelo que hoje denominaríamos história da salvação; c) súplica em favor de Israel: o povo, Jerusalém, o Templo, a vinda do Messias. E rapidamente se cruzou com uma segunda fonte judaica: a oração conhecida como a das 18 bênçãos, que se pronunciava cada sábado na Sinagoga e da qual procede, por exemplo, o nosso «Sanctus». (Chauvet, p. 80)

​Acresce que, nos três primeiros séculos, as orações eucarísticas, também chamadas anáforas, não tinham como base um texto escrito. Improvisavam-se, como facilmente se depreende de um documento da Igreja de Roma, de princípios do século III, conhecido como Tradição Apostólica. No número 9, lê-se: «De modo algum é necessário que o bispo pronuncie as palavras antes mencionadas, preocupado por as dizer de memória, dando graças a Deus, mas cada um elevará as preces segundo a sua capacidade». (Chauvet, p. 80, nota 2) Convém, porém, recordar que esta improvisaçãonão tinha nada que ver com o que o nosso subjetivismo e individualismo contemporâneos nos sugerem, isto é, algo adaptado ao nosso gosto ou que fale do que nos passa pela cabeça. Teria mais que ver com o que faz um pianista quando improvisa tocando uma obra famosa, porque a sabe bem de memória e por isso a pode tornar mais sua na interpretação que dela faz. Do mesmo modo, o bispo improvisava tendo como base padrões bíblicos e litúrgicos relativamente estáveis que tinha assimilado perfeitamente. E será com esta base que, nos séculos IV e V, as orações eucarísticas passaram a escrito, divididas em famílias rituais: a família romana, a família antioquena, a família egípcia, etc.

​A Igreja do Ocidente, verdadeiramente latina a partir do século IV, assistiu ao desenvolvimento de diferentes famílias litúrgicas, que elaboraram as suas próprias ‘orações eucarísticas’. Todavia, nos séculos VII e VIII, a tendência do poder político, sobretudo o imperial, centralizou tudo e conduziu à abolição progressiva das orações eucarísticas galas, célticas e, finalmente, hispânicas. No século XII, já só se conhecia o Cánon Romano, a nossa atual Oração Eucarística I, que supõe uma mudança significativa em relação às outras. Desde logo, distingue-se pela sua estrutura, que consiste numa sucessão de orações, cuja relação nem sempre é clara. Nesse sentido, pode-se dizer que é herdeira do modo de rezar judeu, nomeadamente a ‘oração das 18 bênçãos’. As outras orações eucarísticas de que hoje dispomos nos nossos missais são muito mais ‘gregas’: há nelas um discurso construído, preocupado com a coerência do conjunto.

​O nosso Cánon Romano destaca-se ainda pelo arcaico, como o mostram, por exemplo, as referências a Abel e Melquisedec, ou o anjo encarregado de levar as oferendas ao Céu, ou o facto de que a santificação do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo se atribua a uma bênção bastante geral de Deus e não ao Espírito Santo, como se encontra nas demais orações eucarísticas.

​Em nota de rodapé, Chauvet sugere que a ausência de menção do Espírito Santo na santificação do pão e do vinho demonstra a antiguidade do Canon Romano, dado que foi no Concílio de Constantinopla, em 380, que se insistiu muito na plena divindade do Espírito Santo. Provavelmente, isso contribuiu para aclarar que a bênção divina que podia transformar o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo era obra do Espírito Santo. (pp. 82-83)

​Depois de termos podido utilizar outras orações eucarísticas para além da que vigorou no Ocidente até ao Vaticano II, creio que nos damos conta de que estas, sobretudo as mais utilizadas: a II e a III, IV, V, Va, Vb, Vc, Vd e as da Reconciliação e também as apropriadas para missas com crianças, tornam bem evidente a ação do Espírito Santo na Eucaristia com o que poderíamos denominar de dupla ‘epiclese’. Há uma primeira invocação do Espírito Santo sobre o pão e vinho para que se convertam no Corpo e Sangue de Cristo, isto é, o Corpo Eucarístico, e uma segunda, logo após a consagração, pedindo ao Espírito Santo que congregue na unidade todos quantos participam do Corpo e Sangue de Cristo, ou seja, o Corpo Eclesial ou Místico. E esta dupla epiclese aparece também em todas as outras orações eucarísticas. No Cánon Romano, não há nenhuma.

Carlos Vaz

Carlos Vaz

22 julho 2026