A UNESCO publicou recentemente o relatório “Toward Safe Sport” (Rumo a um Desporto Seguro), reunindo recomendações de atletas, treinadores, dirigentes e vítimas de violência no desporto. A iniciativa é oportuna e bem-vinda. Mas é, sobretudo, um alerta que se deve levar a sério. A violência existe no desporto, em todos os seus níveis. Abuso de poder, assédio, violência psicológica, física ou sexual, discriminação, e os episódios acontecem da escola ao alto rendimento. Nenhum contexto está imune só porque parece seguro ou pouco visível. A resposta tem de ser transversal, na prevenção, formação, responsabilização, e sistemas independentes de proteção das vítimas.
As recomendações desta organização global para a Educação, Ciência e Cultura são equilibradas, uma linguagem clara, sugere a formação obrigatória para os agentes desportivos, recolha sistemática de dados, proteção reforçada para denunciantes, uma abordagem centrada nas vítimas. Podem ajudar todos os países a evoluir. Mas só terão valor se forem cumpridas com rigor e continuidade, e não apenas quando um caso mediático obriga a reagir.
Há, porém, uma reflexão mais ampla a fazer. Pede-se hoje ao desporto que resolva praticamente todos os problemas da sociedade, seja o sedentarismo, obesidade, violência, exclusão, racismo, desigualdade, ou a saúde mental. O desporto pode ajudar em tudo isso, mas não substitui a escola, a família, a saúde, a justiça ou as políticas sociais.
A escola tem um papel central na constituição de sistema seguro, que afetará desde logo o desporto, sobretudo a médio e longo prazo, e se não estiver instalado neste “espaço” arriscamos tudo, nomeadamente a chegar sempre tarde. E porque cada geração traz novos desafios, este é um trabalho que nunca termina, renova-se com todas as gerações que entram no sistema. Devem os países continuar a desenvolver um sistema mais integrado, supervisão independente, maior coordenação entre ministérios e organizações desportivas, e uma aposta séria na formação, com particular exigência ao nível escolar.
O desporto continuará a refletir a sociedade em que se insere. Uma sociedade segura trará sempre um desporto mais seguro. Nunca eliminará todos os problemas, porque eles não nascem no desporto. Mas pode, e deve, ser um exemplo de organização, ética e responsabilidade, do recreio da escola ao “pódio” internacional. É esse o desafio que este documento vem colocar aos governos e às organizações desportivas, construir ambientes onde competir signifique também crescer e sentir-se protegido, hoje e nas gerações seguintes. Porque um desporto verdadeiramente seguro não se mede pelo número de regulamentos que produz, mas pela confiança que consegue inspirar em quem nele participa, ano após ano, geração após geração.