Para que serve meter a mão na consciência? É uma expressão do povo, simples na forma, mas profunda no sentido. Não quer dizer fazer figura de pessoa séria, nem parecer responsável apenas no momento. Significa parar, olhar para dentro e perguntar se fomos justos, se dissemos a verdade, se cumprimos o dever e se respeitámos quem dependia de nós.
Caros leitores, o povo sabe bem o que diz. Há expressões que não precisam de muitas palavras para nos fazer pensar. Meter a mão na consciência é uma delas, porque nos afasta das desculpas habituais e nos obriga a reconhecer, com honestidade, aquilo que fizemos bem, aquilo que fizemos mal e aquilo que devíamos ter feito de outra forma.
Vem a propósito lembrar o filósofo alemão Edmund Husserl e o seu conhecido conceito de epoché, termo grego que significa suspensão do juízo, isto é, a capacidade de parar antes de julgar e de pôr entre parêntesis as pressas, os preconceitos e as desculpas fáceis. É precisamente isto que tantas vezes falta na vida pública, sobretudo quando se tenta justificar depressa aquilo que devia primeiro ser examinado com seriedade. Rousseau chamou à consciência “instinto divino” e “voz imortal”, e Kant lembrava-nos que a consciência é essa voz interior que nos chama à responsabilidade, mesmo quando tentamos fugir com desculpas.
É aqui que a expressão popular se liga aos exames nacionais e aos problemas da digitalização e da correção das provas, porque a tecnologia pode falhar, como tudo o que é humano e técnico também pode falhar. A questão moral começa quando, perante a falha, se tenta diminuir o problema, falar tarde, explicar mal ou não dizer a verdade no momento certo. Porque uma falha informática ainda se corrige com trabalho, mas uma falha de confiança demora muito mais tempo.
Como professor, sei que os exames não são apenas ficheiros num sistema ou numa plataforma. São o trabalho dos alunos, a ansiedade das famílias, a responsabilidade dos professores e a confiança da comunidade. Quando um aluno entrega uma prova, entrega também a esperança de ser tratado com justiça. Quando um professor corrige, precisa de condições e de respeito. Quando uma escola organiza exames, não pode ser transformada em bode expiatório.
Meus amigos leitores, modernizar não é apenas digitalizar, é prever, testar e ouvir os agentes educativos antes de impor soluções que depois têm de ser remendadas no terreno. A pior tecnologia é aquela que se apresenta como futuro, mas depois exige que todos finjam que o presente correu bem, deixando aos professores o papel de bombeiros de serviço, como se tivessem de estar disponíveis a qualquer hora para resolver, com paciência e boa vontade, aquilo que devia ter sido pensado antes. Aqui, sim, era preciso meter a mão na consciência. O Ministério devia ter dito a verdade mais cedo, com humildade institucional e respeito por quem esteve nas escolas a garantir que tudo, apesar das falhas, não deixasse de funcionar. Isso não diminuía a autoridade. Pelo contrário, aumentava a confiança.
Shakespeare escreveu, em Hamlet, que “a consciência faz covardes de todos nós”. Talvez por isso a vida pública precise desta lição, porque quando se erra, o pior não é ter errado. O pior é fugir ao dever de reconhecer, reparar e pedir desculpa a tempo.
Foi o filósofo francês Blaise Pascal quem escreveu que “o eu é odioso”. Talvez por isso pessoas e instituições tenham tanta dificuldade em admitir falhas, preferindo relativizar, esperar que passe ou encontrar alguém a quem culpar. Mas a consciência não se cala só porque nós não queremos ouvir.
Caros leitores, de uma coisa tenho a certeza. Nenhuma plataforma substitui a verdade e nenhuma modernização vale muito quando esquece as pessoas que deveria servir.
– Afinal, porque é tão difícil meter a mão na consciência e tão fácil meter a culpa nas mãos dos outros?