A Liturgia exige que lhe concedamos todo o espaço e tempo de que necessita. «Deixemos à Palavra, à oração, às melodias, aos raios de luz e ao incenso, o tempo e o espaço de que necessitam para ascenderem à abside e voltarem ao nártex (espaço entre a porta e o para-vento); o tempo e o espaço para tocarem Deus, depois de terem tocado o homem, o tempo e o espaço para irem e voltarem. Toda a liturgia se contém neste vaivém, neste espaço, nesta respiração. Neste interstício por onde se aproximam os anjos. Concedamos-lhes tempo e espaço; eles concelebram connosco, como nos assegura sem cessar a tradição litúrgica». (La Belleza de la Liturgia, já citado em textos anteriores, p. 91, citando Orígenes)
Trévedy insiste: «Em Liturgia, devemos deixar respirar as coisas entre Deus e nós, mas também entre nós. Concedamos a Deus a oportunidade de nos alcançar e demo-nos também a nós próprios a oportunidade de o alcançar a Ele mediante a escada de duplo sentido das palavras, dos gestos e dos signos da nossa humanidade perpassada pelo fogo do Amor pascal que é o que nos solidifica e nos vincula firmemente uns com os outros. A grande e verdadeira Liturgia, isenta de qualquer forma de teatralidade como de qualquer ostentação de pobreza, atua da maneira mais simples: consiste integralmente na solenidade da simplicidade. Nada há de mais solene que o simples». (P. 93)
Convida-nos ainda a que realizemos os nossos gestos seguindo Cristo, de modo pausado, em Cristo; e alimentando-nos adequadamente da Palavra. Mostremos que dominamos os gestos que realizamos e que temos plena consciência das palavras que pronunciamos, precisamente porque são gestos e palavras que recebemos. Nada aborrece mais em liturgia que os gestos realizados mecanicamente e sem espírito, precisamente o contrário daquela presença de espírito que a liturgia requer de nós de maneira constante. (P. 93). Creio que está aqui o desafio maior para todos os celebrantes, sobretudo o que preside, mas também de toda a assembleia.
Retiremos algumas indicações para nos apropriarmos dos textos da Bíblia como ‘pão da vida’, cientes de que a ‘fé provém da escuta da Palavra, e a Palavra é a mensagem de Cristo.
A sonorização deve facilitar a escuta e não a dificultar. O livro da Palavra deve ter ‘volume’ e sobretudo não deve faltar o Evangeliário para os domingos e dias festivos.
A leitura, sem ser teatral, deve proclamar-se com inteligência, vivacidade e empatia. Para isso, o leitor deve interioriza-la de antemão. As palavras devem surgir bem articuladas nas frases, tornando o seu significado minimamente percetível a quem escuta. Se quem «lê», não proclama de verdade e não mostra ter captado o sentido profundo das frases, os ouvintes não podem operar o milagre da compreensão do que é menos bem proclamado, porque não plenamente entendido e saboreado. Exige-se um ritmo pausado, sem ser arrastado, com vivacidade na voz e modulação apropriada ao texto nas suas interpelações, exclamações, interrogações, etc.
O leitor não pode deixar de olhar, de fixar amorosamente o público, mostrando a alegria que o invade por estar a proclamar a Palavra de Deus, Palavra de vida para todos os que a escutam de coração aberto. Para tal, tem mesmo que saber muito bem comunicar em público e dominar bem o texto a proclamar. As pausas são absolutamente fundamentais, inclusive para mostrar quão saborosas são para o próprio as palavras proferidas e para dar aos participantes a possibilidade de acompanharem a leitura e serem por ela verdadeiramente iluminados e cativados. Uma muito boa leitura/proclamação dos textos litúrgicos que consiga levar o essencial da mensagem aos participantes vale mais que as palavras da homilia, sobretudo quando muito pouco tem a ver com os textos proclamados. Como modelos de homilia temos os papas e sobretudo estes últimos: São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II e, mais perto ainda, os papas: Bento XVI, Francisco e o atual, Leão XIV. No dia em que escrevia este texto (8) de junho 2026, ainda estava emocionado com o parlamento espanhol a ovacionar o Papa Leão no final do seu discurso, durante nada menos que 7 minutos. Não era uma eucaristia. A assistência era muito exigente em várias dimensões, mas o Papa, fiel à verdade do Evangelho, conseguiu atingir a inteligência e o coração dos deputados e outros também presentes. O mesmo pudemos verificar nos outros atos religiosos a que presidiu. Ele é exemplo de como a simplicidade e naturalidade dos gestos e palavras, juntamente com a riqueza do conteúdo das suas intervenções conseguem tocar o coração das pessoas.
«Tudo isto nos convida, não a ‘ler’ o texto, mas a dirigi-lo da forma mais viva possível aos irmãos e irmãs presentes». (Chauve t, p. 74)
Harmonizados uns com os outros no Amor e pelo Amor, conscientes de expressar e de ter entre as nossas mãos, com a liberdade dos herdeiros, aquele imenso tesouro de alegria e beleza que é a Igreja (Paul Claudel), irradiemos a alegria de anunciar a morte de Jesus Cristo e de celebrar a sua Ressurreição até que venha. Só então, através dele e de nós, a nossa liturgia resplandecerá. (Cf. Trévedy, o.c, pp 93-94)