Por que será que os meios de comunicação – sobretudo televisionados e escritos – usam (senão abusam) do recurso às más notícias? Isso é necessário? Que significado pode ter para o entendimento da personalidade humana? Será mesmo um atrativo ou tem-se exagerado neste recurso para a conquista de audiências? Por que se estende o filão das ‘más notícias’ no quadro da organização da grelha informativa? A percentagem de assuntos positivos não será relegada para o rodapé, enquanto o pior é como que exaltado, quase de forma doentia?
1. Estas e outras questões podem e devem ser respondidas, até por imperativo ético-moral. De fato, quanto tempo é gasto a falar de coisas e de pessoas onde o que é menos glorioso se acentua de forma quase acintosa e/ou vergonhosa: uma desgraça, uma prevaricação, um crime, uma declaração menos acertada ou até um deslize de linguagem têm foros de destaque, enquanto o contrário passa por entre o dedilhar da escrita ou encoberto pelas imagens em desfavor…mesmo que anteriormente tenha sido de merecimento e de exaltação.
2. Há campos da vida onde as más notícias são quase irremediáveis. Tenhamos em conta o setor da saúde, onde, por vezes, é preciso dar notícias desagradáveis, como o estado de uma doença ou até o falecimento de alguém. Há um protocolo designado ‘SPIKES’, que é um guia de seis etapas, criado para ajudar profissionais de saúde a transmitir diagnósticos difíceis ou notícias graves de forma estruturada, empática e focada no paciente. A sua sigla em inglês representa cada um dos passos fundamentais para realizar a conversa: ‘setting’ - preparar a entrevista; ‘perception’ - avaliar a perceção; ‘invitation’ - obter o convite; ‘knowledge’ - transmitir a informação; ‘empathy’ - abordar as emoções; ‘strategy and summary’ - estratégia e resumo…
Não é sobre esta exceção de dar ‘más notícias’ que me quero referir, mas a algo mais normal – muitas das vezes como que normalizado – no quotidiano de pessoas, de grupos e na sociedade em geral.
3. Retomando o tema das ‘más notícias’, este pode abranger questões de índole humana, fenómenos da natureza ou até situações de teor ético-moral. Quanto tempo é gasto a falar de más notícias, levando, nalguns casos, a quase escarafunchar o assunto até à exaustão. Vemos, com frequência, pessoas de microfone na mão – ‘jornalista’ é muito mais do que um relatador de desgraças – horas a fio a esmiuçar crimes, a conjeturar sobre pretensos suspeitos, a vomitar considerações sobre tudo e para com todos…esquecendo o bom nome dos réus e de suas famílias. O cardápio dos mentores das más notícias faz curriculum nos écrans, começam a ser reconhecidos pelo seu desgraçadismo militante e pela alimentação generalização de ‘quanto pior melhor’, pois têm palco, tempo e consumidores.
4. O país está à mercê deste ambiente sociopolítico, anarco-ideológico, tanto ao nível do desporto quanto nas questões sindicais, no posicionamento ético como nas vertentes económicas… as más notícias suplantam o relato de sucesso, as vitórias pessoais ou coletivas, os aspetos simples aos mais complexos: quem destoar pela positiva como que é excluído irremediavelmente.
Seja qual for o resultado final da prestação da seleção portuguesa de futebol masculino no mundial da competição, o que tem interessado não são os sucessos, mas a quezílias de maledicência e a menos boa prestação de alguns, generalizando para todos… Bandeirinhas são mero cenário?
5. É neste ambiente de pessimismo – que não era caraterístico do nosso país – que temos de combater os sinais de más notícias, tentando trazer para a luz do dia coisas, acontecimentos, pessoas e coletividades, fatos e iniciativas que exorcizem este puxar-para-baixo de tantos dos nossos promotores em estado quase-patológico ao exaltarem o mal e esquecendo tanto bem que se faz e é feito.
Mesmo no ambiente eclesial será útil e necessário que seja mudado o registo ou entraremos em contradição entre o que se diz e aquilo que fazemos recorrentemente… Os gestos valem mais do que as intenções!
6. A comunicação social de índole (ou dita de inspiração) cristã será diferente?