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O desaparecimento da memória institucional

 

 

Enquanto se discute inteligência artificial, transformação digital e modernização das organizações, um problema muito mais silencioso está a crescer debaixo da superfície: o desaparecimento da memória institucional. As organizações estão a perder os seus "velhos sábios". Reformas, aposentações, mobilidade, saídas para o setor privado e elevada rotatividade estão a retirar do sistema pessoas que sabiam não apenas o que fazer, mas sobretudo porquê. Sabiam porque determinada decisão foi tomada, porque um processo existe, quais os riscos já experimentados, quais os erros que não devem ser repetidos e quais as soluções que já provaram funcionar. Quando estas pessoas saem, raramente levam apenas competências. Levam contexto. Levam experiência. Levam memória. Durante anos, assumiu-se que o conhecimento relevante estava nos procedimentos, nos regulamentos e nos manuais. Mas a realidade é mais complexa. Uma parte significativa do conhecimento organizacional nunca chegou a ser escrita. Vive nas conversas, nas relações de trabalho, nas decisões difíceis, nas crises ultrapassadas e nas lições aprendidas ao longo do tempo. É conhecimento tácito. E, quando desaparece, raramente é recuperado. O mais preocupante é que esta perda ocorre sem alarmes, sem manchetes e sem indicadores de gestão que a tornem visível. Uma organização consegue medir saídas de pessoal, taxas de rotatividade ou custos operacionais. Mas dificilmente consegue medir a quantidade de conhecimento crítico que desaparece cada vez que um profissional experiente abandona funções. O problema não é exclusivo da Administração Pública. Empresas privadas, hospitais, universidades e organizações de todos os setores enfrentam exatamente o mesmo desafio. À medida que gerações inteiras de profissionais se reformam ou mudam de organização, perde-se um património acumulado durante décadas. As consequências surgem mais tarde e, por isso, são frequentemente ignoradas. Decisões tornam-se mais lentas porque ninguém se recorda dos antecedentes. Debates regressam ciclicamente porque se perderam as conclusões anteriores. Erros repetem-se porque desapareceu a memória dos seus impactos. Equipas inteiras gastam tempo e recursos a redescobrir aquilo que já era conhecido. Existe ainda uma consequência particularmente perversa: a ilusão de novidade. Sem memória institucional, ideias antigas reaparecem como soluções inovadoras, propostas anteriormente rejeitadas voltam a ser apresentadas como inéditas e riscos já identificados são tratados como se estivessem a ser descobertos pela primeira vez. Sem memória, as organizações não avançam; limitam-se a andar em círculos. Em Portugal, esta realidade tende a agravar-se nos próximos anos. A saída simultânea de muitos profissionais experientes representa não apenas uma mudança geracional, mas uma potencial perda de conhecimento acumulado à escala de setores inteiros. E esse conhecimento não se recompõe rapidamente. Pode levar anos, ou mesmo décadas, a reconstruir. Talvez seja altura de reconhecer uma verdade desconfortável: a maior perda das organizações não é o talento. É a memória. E uma organização que não aprende está condenada a repetir o passado, pagando sucessivamente o preço de esquecer aquilo que um dia já soube. Existe ainda uma consequência particularmente perversa: a ilusão de novidade.. Sem memória, as organizações não avançam; limitam-se a andar em círculos. Mas o problema não se esgota ao nível de cada organização. Quando a perda de memória institucional se torna generalizada, transforma-se num problema económico. Países e setores inteiros começam a perder capacidade de acumular conhecimento, de transmitir experiência entre gerações e de construir sobre aquilo que já aprenderam. O resultado é uma espécie de amnésia coletiva que reduz a produtividade, enfraquece a capacidade de adaptação e aumenta os custos de decisão.

Paulo Sousa

Paulo Sousa

5 julho 2026