A tragédia dos terramotos na Venezuela leva-me a pensar que vivemos numa doce mas mentirosa ilusão de segurança. Raros nos lembramos que a Terra se sustenta no ar sem qualquer coisa que a aguente. Poucos se lembram que a crosta terrestre não é tão sólida como nos parece. Basta que a terra trema para tudo se desmoronar. Mas mesmo assim continuamos a construir em altura e todas as torres desabam como um baralho de cartas. Mas continuamos a construir em altura; outros constroem as suas casas nos veios de água naturais e depois ai Jesus quando as cheias lhe levam pessoas e haveres; outros edificam as sua pomposas mansões no meio da floresta; quando esta se incendeia, levando a grandeza na voracidade das chamas, choram a tragédia; mas continuamos a construir no meio dos montes. Estes “culpados” não estão sós. Quem dá autorização para tais construções têm a sua quota-parte das culpas; as licenças de construção continuam a ser passadas; fala-se depois no ordenamento do território. Os outros responsáveis são os governos: enchem os seus arsenais de armas para matar e não enchem as suas arrecadações para salvar. Continuamos a dar privilégio à morte do que à vida. No caso Venezuela não vi uma máquina pesada a trabalhar o entulho; não vi a engenharia militar a marcar a sua presença, não vi a tecnologia ajudar na procura de sobreviventes. Os estados armam-se para matar e não para salvar; dá-nos a certeza de que os países têm mais canhões, vasos de guerra, e drones do que escavadoras, e outras maquinaria pesada de salvamento em catástrofes destas. A guerra pode acontecer a qualquer momento e as nações têm de estar preparadas para a defesa das soberanias, dizem. Dizem e é verdade, mas se a guerra é de tempos a tempos, os tremores de terra também são uma constante. Nenhum país está imune a terramotos, tsunamis ou incêndios florestais e, infelizmente vão sendo cíclicas as catástrofes; logo, parece-nos lógicos que os países se armem para defesa própria, mas também, se “armem” para defender as pessoas, os teres e haveres das suas populações. A troca, ou melhor, a preferência para o armamento parece-me uma injustiça humana. O ser humano não é, não pode ser, moeda de troca. Nunca. D. José, depois do terramoto de 1755, passou a viver numa barraca, a que se chamou de barraca real. Sabia que o medo era a sua melhor arma de segurança