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A música ao serviço do texto

 


 

Cresci a escutar e a cantar, na liturgia da minha Paróquia e dos Seminários onde me formei, as músicas simples e belas do Padre Manuel Luís, cujo centenário do nascimento se celebra na próxima quarta-feira.

Nascido a 8 de julho de 1926, em Turquel (Alcobaça), o Padre Manuel Luís fez os seus estudos nos Seminários de Santarém, de Almada e dos Olivais, em Lisboa, onde aprendeu com Monsenhor José Manuel Pereira dos Reis1 a importância da participação dos fiéis na liturgia.

Ordenado sacerdote a 29 de junho de 1951, por D. Manuel Gonçalves Cerejeira, seguiu para Roma, onde frequentou o Pontifício Instituto de Música Sacra, diplomando-se em Canto Gregoriano e em Composição Musical Sacra.

Quando regressou ao Seminário dos Olivais, desenvolveu intensa atividade pedagógica e dirigiu um coro polifónico que tinha à sua conta, entre outras coisas, o serviço de liturgia e música da Sé Patriarcal.

De 1969 a 1975, foi pároco da Sé de Lisboa e, após isso, pároco da Paróquia de Nossa Senhora das Mercês, onde faleceu no dia 5 de julho de 1981, com 55 anos incompletos. Assumiu ainda o cargo de Presidente da Comissão Portuguesa de Música Sacra, desde 1965 até à data da sua morte.

O Padre Manuel Luís destacou-se como um dos primeiros impulsionadores da música litúrgica em português, após o Concílio Vaticano II e a abertura da liturgia às línguas comuns. Musicou inúmeros textos litúrgicos em língua vernácula, criando assim um vastíssimo repertório, ainda hoje utilizado em todo o país, que se carateriza por ser essencialmente monódico (uma única linha melódica cantada por uma ou mais vozes), privilegiando o órgão no acompanhamento harmónico.

Entre as muitas músicas que compôs e publicou, o destaque vai para a edição completa dos Salmos Responsoriais para as missas dos três anos litúrgicos (A, B e C), caso único em toda a Europa. Se é certo que em todas as suas melodias se constata estar a música ao serviço do texto, numa espécie de osmose entre a melodia e a letra, é nos Salmos que isso mais se evidencia.

O Padre Manuel Luís compôs também diversos cânticos para os diferentes momentos da celebração, bem como hinos e estrofes para a Liturgia das Horas, publicados, em boa parte, no seu livro Cânticos da Assembleia Cristã, assim como na Nova Revista de Música Sacra (Braga) e no Boletim de Música Litúrgica (Porto). Nestas revistas e no Boletim de Pastoral Litúrgica, publicou também diversos artigos sobre a música e a liturgia.

A sua produção musical, de fundo gregoriano, mas também com raízes no canto popular português, é apoiada nos textos bíblicos e da tradição litúrgica, usando também diversos poemas de Fernando Melro2. Aliás, a relevância das suas peças musicais advém do modo como conseguiu unir a tradição do canto gregoriano, uma linguagem musical simples e cantável pela assembleia e os textos litúrgicos em português. E ainda da influência que exerceu sobre diversos compositores de música litúrgica, cujo expoente será o Padre António Cartageno, da diocese de Beja.

Por altura da celebração dos 40 anos do falecimento do Padre Manuel Luís, o Padre Teodoro Sousa definiu, com mestria, o seu estilo de música: “As suas melodias são simples, sem serem banais; são profundas, sem serem académicas. As suas harmonizações são, muitas vezes, inesperadas e subtis, mais contrapontísticas do que corais. Compor cânticos que ajudem as pessoas a rezar, que sejam simples, mas não banais, é o principal legado que o padre Manuel Luís me deixou”3.

Nessa mesma ocorrência, o então Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, afirmou que o Padre Manuel Luís “é um nome cimeiro dessa geração de homens, grandes compositores de música sacra, que, em todo o país, nos ofereceram estas melodias de uma liturgia que se reencontrou com a simplicidade e com a verdade das origens cristãs e sobretudo com o sentido da assembleia”4.

A sua pessoa e obra têm sido objeto de alguns estudos, de que destacamos uma dissertação de mestrado apresentada na Universidade Católica Portuguesa, em 2006, da autoria de Rui Jorge de Sousa Silva, intitulada O Mistério de Cristo na Música Litúrgica Pós-Conciliar: O Caso Português do Padre Manuel Luís.

De saúde débil, o Padre Manuel Luís viveu pouco tempo, mas o seu legado permanece bem vivo entre nós. As suas músicas aproximaram muitos da Igreja, mas sobretudo continuam a aproximar-nos de Deus. Pela sua entrega à música litúrgica, muito lhe deve a Igreja em Portugal.

 

1 José Manuel Pereira dos Reis nasceu em 1879 e faleceu em 1960. Sacerdote do Patriarcado, foi reitor do Seminário dos Olivais e teve um papel relevante no Movimento Litúrgico Português. Na fase final da sua vida, recolheu-se ao mosteiro beneditino de Singeverga, onde veio a falecer.

2 Poeta português nascido em 1930 e falecido em 2014. Publicou, entre outros, A manhã e o mar e Memória das águas.

3 Jornal Voz da Verdade, 18 de julho de 2021. 

4 Jornal Voz da Verdade, 18 de julho de 2021.

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

6 julho 2026