A humanidade corre demasiado. E com a ânsia de conseguir ter mais e mais bens materiais, esquece-se de que é primordial ter tempo de qualidade com Deus, consigo própria, com a família e com os amigos. Daí, a vida passar tão veloz quanto o ritmo que os seres humanos lhe imprimem, o que mais depressa faz aproximar o fim da sua existência. Ou, então, quando sucede uma tragédia como o inesperado sismo que varreu a Venezuela em que, de repente, centenas de vidas se apagaram debaixo dos escombros.
A partir daí, interrogo-me sobre o porquê de, perante tanto infortúnio, os humanos não arrepiarem caminho. Continuando a cultivar autênticos paradoxos, como por exemplo: “casas grandes, famílias pequenas / mais diplomas, menos senso comum /Mais SNS, menos acesso à saúde / conhecer o mundo, desconhecer vizinhos / alto rendimento, baixa paz de espírito / muito conhecimento, pouca sabedoria / agenda lotada, escasso tempo p’ra amar / amigos virtuais, raros reais / muito humanos, pouca humanidade / relógios caros, sem tempo p’ra nada / muitos haveres, fartos de tudo / valorizar o acessório, desprezar o essencial / menos trabalho, mais fadiga / férias alargadas, estreita disponibilidade / cuidar da imagem, esquecer a alma / apelos à paz, guerras sem fim / juras d’ amor, violência doméstica.
Com efeito, as contradições não param por aqui. Pois elas estão sempre a surgir na conduta humana. Há como que um sentido de superficialidade na de vida dos cidadãos no mundo de hoje.
Vejamos pois: resmas de livros, literacia diminuta /fome no mundo, desperdício alimentar / grandes fortunas, miséria humana / belas teorias, feias práticas / respeitar as leis dos homens, desprezar a do Criador / políticos convencidos, governantes precários / demasiados deputados, frouxas Leis / malfeitorias em barda, falta de Justiça / intelectuais à fartazana, défice cultural / ‘N’ avisos de prudência, ‘Y’ de inconsciência / fértil imaginação, aplicação precária / minga o amor, cresce o ódio / 20 em opulência, zero em honestidade / muito temor, pouca fé.
São tantas as incongruências, por aí, que seria fastidioso aqui descrevê-las a todas. Contudo, outras há que não posso deixar de citar: diminui a verdade, aumenta a mentira / boas perguntas, más respostas / muito discutido, pouco executado / promessas sem conta, raro cumprimento / alguns ricos, demasiados pobres / saudade ao longe, nenhuma ao perto / melhora a formação, piora a educação / sobe o poder, baixa a competência / loas dadas, hipocrisia instalada / tecnologia a rodos, escasso espírito humano / erros aos montes, culpados nenhuns / praias limpas, mares, rios e fontes poluídos / lugares airosos, lixo nas cercanias / fogo a mais, água a menos / tantos bombeiros, poucas agulhetas, etc.
Parafraseando o saudoso Papa Francisco direi que “a vida é como uma viagem de comboio e as respetivas estações. Ao nascermos apanhamos aquele que nos leva de encontro aos nossos pais. Acreditamos que na viagem os teremos sempre ao nosso lado. Porém, ao chegarmos a uma das estações da nossa viagem terrena, desembarcam e ficamos sós”. Por isso, familiares, amigos e conhecidos, sem nos darmos conta, apeiam-se numa delas não mais os voltando a ver. Apenas ficam as lágrimas, a saudade e, quiçá, o remorso pela incoerência mantida em tudo aquilo que só faz sentido se a bota bater com a perdigota.
Também o nosso poeta, João de Deus, refere num dos seus poemas que “a vida é sonho tão leve que se desfaz como a neve e como o fumo se esvai; a vida dura um momento, tão breve quanto o pensamento; a vida leva-a o vento, é folha que cai, é como a estrela cadente no firmamento”.
No mesmo sentido, elejo as palavras do nosso Cardeal, D. Tolentino de Mendonça, ao lembrar-nos que “depois de todas as fadigas, há um tempo livre, pleno de paz e tranquilidade”. Ou não fosse a eternidade, nesta “absurdeza” de incoerências humanas, a mais coerente de todas. A do fim da “lufa-lufa” e o descanso eterno.