Almeida Garrett escreveu que, de todas as viagens que fizera, as que mais o interessaram foram “as viagens na minha terra”. A frase tem qualquer coisa de profundamente minhoto. Porque o Minho não é apenas um território que se percorre: é uma terra que se reconhece. No granito, no verde, nas igrejas, nas romarias, nas fábricas, nas universidades, nas misericórdias, nas aldeias, nas cidades e nessa forma muito própria de pertencer a um lugar sem precisar de o proclamar todos os dias.
Mas há uma pergunta que Portugal evita há demasiado tempo: pode uma terra com esta identidade, esta densidade social, esta capacidade económica e esta história continuar a ser governada quase sempre à distância?
A regionalização anda esquecida e não pode ser um capricho administrativo. É, antes de tudo, uma questão de maturidade democrática. Durante décadas, Portugal habituou-se a discutir o território a partir da capital. O país foi sendo pensado de cima para baixo, como se a inteligência estratégica estivesse concentrada em Lisboa e o resto da nação fosse apenas destinatário de decisões. O resultado está à vista: assimetrias persistentes, interior abandonado, litoral pressionado, serviços públicos desiguais, transportes por resolver, políticas desenhadas em abstrato e uma permanente sensação de que o poder local conhece os problemas, mas nem sempre dispõe dos instrumentos para os resolver.
O Minho sabe bem o que isto significa. Há aqui uma região real, feita de relações económicas, sociais, culturais e humanas, que muitas vezes é mais evidente na vida concreta das pessoas do que nos mapas administrativos.
Eça de Queirós escreveu que importava pôr “sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”. Mas, neste caso, talvez a verdade dispense demasiada fantasia: Portugal continua centralizado demais. E o centralismo tem uma grande habilidade — apresenta-se sempre como prudência. Chama “cautela” ao adiamento, “racionalidade” à concentração, “unidade nacional” à desconfiança perante os territórios. Como se dar poder às regiões fosse dividir o país, quando, na verdade, é a forma de o unir melhor.
Regionalizar não é criar pequenos reinos, nem multiplicar cargos, nem alimentar vaidades locais. Essa é a caricatura habitual de quem prefere que tudo continue na mesma. Regionalizar, se for feito com seriedade, é aproximar a decisão do problema. É permitir que políticas de transportes, ambiente, desenvolvimento económico, saúde, educação, cultura e fundos europeus sejam pensadas com conhecimento concreto do território. É responsabilizar politicamente quem decide. É dar rosto ao poder regional, em vez de o diluir em estruturas intermédias pouco compreendidas pelos cidadãos.
O Minho tem condições para ser uma das vozes mais fortes deste debate. Não por qualquer tentação separatista ou provinciana, mas precisamente pelo contrário: porque sabe o que pode oferecer ao país. Tem indústria, agricultura, turismo, cultura, património, universidade, ciência, associativismo, instituições sociais, capacidade exportadora e uma identidade reconhecível. Tem escala humana e densidade económica. Tem tradição e modernidade. Tem passado, mas não vive apenas dele.
A regionalização deve, por isso, ser discutida sem medo e sem slogans. Certo que regionalizar mal seria um erro. Mas continuar a adiar tudo por medo de errar é também uma forma de erro político. Talvez a pior, porque se disfarça de sensatez.
O Minho não quer ser postal. Não quer ser apenas paisagem para campanhas turísticas, nem memória para discursos oficiais, nem folclore para dias de festa. Quer ser território de decisão. Quer que a sua voz pese quando se discutem investimentos, infraestruturas, serviços públicos, desenvolvimento económico, ambiente, cultura e futuro. Quer participar na definição do seu caminho, não apenas executar orientações desenhadas longe.
Garrett viajou pela sua terra para compreender o país. Talvez Portugal precise agora de viajar melhor pelas suas terras para se compreender a si próprio. Porque um país não se fortalece quando concentra tudo; fortalece-se quando confia nas suas regiões. Não se torna mais unido por ser mais centralizado; torna-se mais unido quando cada território sente que conta.
O Minho tem alma, mas precisa também de poder. Tem identidade, mas precisa de instrumentos. Tem ambição, mas precisa de autonomia responsável.