1.Numa sociedade bem organizada é indispensável a existência da autoridade. Quem mande e mande bem.
Disponibilizar-se para exercer o poder é prestar um serviço à comunidade. Mas é indispensável que o poder seja bem exercido; seja encarado como serviço e não como oportunidade de se servir. Não como meio de se promover, de promover os seus, de proteger os do seu círculo de amigos ou do seu partido.
2.Os homens do poder hão-de ter sempre em vista o bem comum. Hão-de procurar decidir com imparcialidade. Hão-de agir como quem possui a consciência de que está ao serviço de todos embora não tenha sido eleito por todos. Hão-de saber resistir às tentações do compadrio, da demagogia, do eleitoralismo, da partidarite. Hão-de saber atender todos os cidadãos, sejam eles quem forem, como cidadãos que são e não como militantes ou simpatizantes do partido A ou B.
Para quem exerce corretamente o poder há um – só um – grupo de pessoas que merece ser olhado com mais carinho: o dos realmente mais carenciados e fragilizados.
3.Os homens do poder hão-de saber legislar tendo em vista o bem da comunidade e não os interesses de um amigalhaço. Hão-de saber elaborar planos e programas que devam se respeitados por todos.
Não soa a escândalo, por exemplo, que o proprietário de um terreno o venda atendendo a que no mesmo se pode construir apenas com quatro andares e o comprador possa construir com seis? Não soa a escândalo que a uns se exija tudo, tudo se complique, e que a outros se feche os olhos a tudo e tudo se facilite? Não soa a escândalo que para uns não haja dinheiro e para outros se abram os cofres? Não soa a escândalo que se não invista numa freguesia só porque a autarquia não é da cor política que convém?
4.É vidente que os homens do poder têm de possuir meios que lhes permitam exercer esse mesmo poder. Hão-de ser devidamente remunerados. Mas isso não pode justificar que no leque salarial haja disparidades escandalosas. Se o País é pobre para quem obedece também não é rico para quem manda. Se se remunera o trabalho de uns pelos padrões dos países mais desenvolvidos porque é que esse critério não há-de ser seguido em relação a todos?
Os homens que exercem o poder devem agir com o máximo de transparência. Devem prestar regularmente contas à comunidade, sem nada camuflar e nada omitir.
5.Os homens que exercem o poder hão-de ser rigorosos na gestão dos dinheiros públicos. Nada de despesas sumptuárias quando há cidadãos carecidos do essencial. E quando o dinheiro não chega para tudo, que se actue com justiça e com critérios seguros na distribuição das verbas e na elaboração da escala de prioridades. Que as despesas pessoais sejam pagas com dinheiro do próprio ordenado. Que o carro atribuído ao presidente para o exercício do cargo não seja o carro da família.
O bom exercício do poder conduz, na minha perspetiva, à limitação de mandatos, a todos os níveis. Que se ponha termo aos cargos vitalícios. Para que os homens do poder não adormeçam, não se acomodem, não se instalem. Para que as pessoas sejam julgadas em vida pelos atos de relevância pública. Para que quem vem atrás, com outros critérios e com outra sensibilidade, preencha lacunas que, na melhor das intenções, se deixaram em aberto. Para que se dê a outros a oportunidade de mostrarem o que valem e do que são capazes. Para que as comunidades beneficiem periodicamente com lufadas de ar fresco.
6.Antes de defender a alternância do poder talvez se deva defender uma nova conceção do poder e um verdadeiro e efetivo controlo de todos os poderes. Para que os oprimidos de ontem não sejam os opressores de hoje.
Anexa ao poder há a ideia da corrução. Diz-se que o poder tem a possibilidade de corromper, e que tal possibilidade é maior quando o poder é absoluto. Que os eleitores pensem muito seriamente quando são solicitados a darem maiorias absolutas. Estas facilmente se convertem em ditaduras da maioria.