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Um romance plurifacetado e polifónico

Depois de algumas obras de ensaio, acaba de ser publicado um romance com título apelativo Benedita e o Padre Tomás, Ed. Astrolábio - Lisboa 1926, apresentado em Braga e em Viana do Castelo, cujo autor-pintor Pintomeira, é natural de Deocriste, – casa da colunata – que estudou na Escola Superior de Belas Artes no Porto, viveu em Lisboa, Paris e Amesterdão. Trata-se de alguém com uma cultura plural, aberto ao mundo e sensível aos grandes temas e polémicas da atualidade.

Goethe (1749-1832) dá uma definição breve e exacta da ficção romanesca:

“O romance / narrativa é uma epopeia subjetiva na qual o autor pede licença de tratar o universo à sua maneira; a única questão é pois saber se há uma maneira – o resto será dado por acréscimo” (cit. Wolfgang Kayser em Poétique du récit).

Para ele, a narrativa pessoal é a sua verdadeira característica: o resto será dado por acréscimo, pelo leitor. O narrador é uma personagem de ficção, em que o autor se metamorfoseou… O romance não é uma reprodução, mas a criação de um universo, não da ordem da história, mas estória, da ficção: não do factum, mas do fictum: uma verosimilhança, não a verdade, uma opinião, ou uma pós-verdade, fake news. É contudo um termómetro real ou imaginário, fantasioso, quimérico ou fantástico. Será assim que todos os leitores leem a narrativa ficcional?

Há neste romance uma temática actual: a violência doméstica, expressa no crime de incesto, em que um pai abusa da filha, e um sacerdote, que, a instância de famílias influentes, tudo fazem por salvar essa filha, que, finalmente é acolhida na residência do sacerdote. O Padre Tomas – jovem sacerdote, “pujante, simpático, sensível, acolhedor” que tinha começado por um flirt, e acabou por entrar em “curto-circuito” com a jovem zeladora do altar, de 23 anos, sobrinha da sua tia Delfina. Filha do viúvo de Celeste Quintas, Henrique do Monte, truculento, que, predador criminoso e consciente das suas fraquezas, acaba por assassinar com uma faca-solução camiliana!-o Padre Tomás, por ciúmes e medo de denúncia, na véspera de Natal, antes da Missa do Galo, pondo toda a paróquia em pânico…

Um desfecho trágico numa pacata paróquia do Norte litoral, nos anos 60-70, numa época de um Portugal conservador, salazarista, um pouco amordaçado pela pobreza e em prelúdio da guerra colonial.

Com muitos traços históricos sobre a paróquia de Tourela, de reminiscências beneditinas e convento, extinto aquando da República, há um tema que se levanta, de ordem disciplinar: pode ou deve a Igreja exigir o celibato de um jovem padre, que se apaixonou, acolheu e deu o melhor de si num amor mais puro e generoso, que seduziu uma jovem que acolheu, libertou dos abusos do pai, e tratou melhor que algumas esposas?!

Depois de algumas referências ao cânon 277 do concílio de Elvira ( 314) e, mais tarde, do 1.º conc. de Latrão (1139) e de Trento até ao cânon 1030 do Direito canónico atual, em que a Igreja oficial exige a castidade plena, contra o “ sentimento mais nobre da relação de um Padre com uma mulher,e proíbe o casamento do Padre Católico, obrigando ao celibato eclesiastico”.

Como adjuvantes, e/ ou oponentes, em visão extradiegética, aparece a aceitação de algumas famílias da confiança do sacerdote para salvar a Benedita, que, depois da morte da irmã do padre, vai viver na residência paroquial, acabando por ser vilipendiada, e o padre é assassinado pelo pai com uma faca na vigília de Natal. O narrador homodiegético Lourenço, que chegou à paróquia em 1957, aí viveu até os 19 anos conhece todos os traços, segmentos e transes de “gentes devotas, humildes e trabalhadoras a viver ao ritmo da natureza, onde se entrelaçam tradições” de religioso e sagrado num misto de bisbilhotice e tolerância aceitável.

Em detalhes e núcleos,índices, informantes, catálises, numa hybris provocatória, jogados em analépses, prolépses, em caleidoscópio de sensibilidades e vozes, há um retrato sincrónico e sinergético polícromo e polifónico, com pareceres que se cruzam em agentes e actores,como adjuvantes e/ ou oponentes,criando um verdadeiro cenário trágico, teatral ou cinematográfico.

É uma verdadeira telenovela digna de um filme com reflexão em diversas cambiantes e espelhos paralelos para concitar a reflexão dos leitores, sem o narrador assumir uma posição concreta e pessoal. De facto, uma verdadeira narrativa digna de um filme com problemática e temas muito atuais. Vale a pena ler e meditá-lo…

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Rosas de Assis

2 julho 2026