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Não é preciso ser adivinho

Estava escrito e não era nas estrelas. Estava escrito em muito do que se escreveu sobre o assunto. Não houve, por isso, novidade no que ficou decidido no Parlamento sobre a reforma laboral. Tinha sido dito que o Partido Socialista não alinharia na proposta que, teimosamente, o Governo apresentou sem incluir os principais contributos daquele. Tinha também sido dito e redito que o Chega não deixaria o documento passar sem que o Executivo cedesse na sua principal reivindicação que era a baixa da idade da reforma. Também tinha sido dito, de diferentes formas, de que era mais fácil José Luís Carneiro ceder em alguma coisa do que o Governo embarcar na exigência contracorrente de André Ventura. Não se percebeu aquele corridinho ao palco da Assembleia da República dos protagonistas que asseguravam convictamente – nenhum actor experiente representaria melhor o acto – de que o diploma passaria à especialidade. Houve, talvez por isso, quem tivesse acreditado em que os diferentes actores cederiam na hora da votação e o Governo gritasse vitória. Puro engano! Mas, mesmo que isso acontecesse – que o texto fosse aprovado na generalidade – e a não ser que as centrais sindicais viessem a dar apoio à versão final do documento que saísse da discussão na especialidade – algo muito difícil de acontecer, face das posições extremadas –, o Presidente vetaria a reforma laboral a atender aos argumentos que elencou ainda antes de ter tomado posse. O pacote da reforma laboral foi, desde o princípio, alvo de uma percepção generalizadamente negativa e o Governo só muito tarde – já a opinião geral se tinha formado –, veio a público explicar as medidas propostas. O Governo foi derrotado como estava escrito, ainda que não tivesse cedido naquilo que era fundamental para preservar o equilíbrio financeiro do sistema de pensões. Podem ter havido outras reivindicações que se não conhecem durante as negociações, mas a que referi terá sido certamente a que mais pesou. Será que André Ventura teria dito sim ao acordo com Montenegro com a promessa deste em trocar a bandeira reivindicativa daquele por outros ganhos de causa e que no período que antecedeu a votação o primeiro percebeu que ia cair numa cilada? Um dia destes há-de saber-se, mas para já não faz precisão.


 

Nem tudo foi mau para o Executivo. O Partido Social Democrata tem vindo a deslizar na curva descendente de popularidade, tendo chegado a aparecer, numa sondagem de algumas semanas atrás, em terceiro lugar nas preferências do eleitorado. Se o pacote laboral tivesse sido apoiado por uma maioria de deputados, o mais provável é que se consolidaria a tendência decrescente do partido que Montenegro ainda lidera, o que não quer dizer que isso não vá acontecer na mesma, mas tendo em conta a impopularidade das medidas que estiveram em discussão, certo e sabido que teriam uma força de furacão na debanda do eleitorado que ainda lhe resta, o que, sendo por ora significativo já não é o que foi.


 

Não se ponha em bicos de pés, porém, o responsável máximo pelo partido Socialista que, julgo bem provável, será o partido mais votado no próximo acto eleitoral. Não será ainda a vez de José Luís Carneiro ascender à chefia do Governo. Primeiro ainda há-de sair Montenegro de cena quando perder as próximas legislativas, ainda sem ano definido para acontecerem, e voltar Pedro Passos Coelho para se vingar de António Costa. Se Passos voltar, o partido vai exigir que ele o faça, quanto mais não seja para continuar no Governo do país, ainda que não seja ele o principal protagonista, a não ser que André ceda o lugar ao antigo chefe. Fica escrito, mas se tal não acontecer, não sou dos que ficam em causa.

Luís Martins

Luís Martins

23 junho 2026