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O pão da vida na mesa da Palavra (6)

«A Igreja venerou sempre as Divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na Sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da Palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo». (Dei Verbum, nº 21).

Este texto coloca as Escrituras e o Corpo do Senhor quase num plano de igualdade. O verbo «venerar» que, aqui, se aplica a ambos, normalmente substitui-se por um termo mais intenso quando se trata da Eucaristia: nesse caso, utiliza-se o verbo «adorar», termo reservado unicamente a Deus. É o que acontece na Eucaristia, na qual adoramos ao próprio Cristo como sacramento. Veneramos as Escrituras, veneramos os ícones e as imagens, mas adoramos a Cristo na Eucaristia. De qualquer modo, ao afirmar-se que sempre se veneraram as sagradas Escrituras e os ícones, sobretudo na tradição oriental, se se veneram é porque são como que o sacramento da Palavra de Deus. E é o pão da vida o que se oferece na mesa, tanto da palavra de Deus como do Corpo de Cristo. Nestes textos, trata-se de uma só mesa com dupla vertente, digamos assim, enquanto noutros textos se fala de uma dupla mesa.

O importante é compreender que as Escrituras são como que o primeiro sacramento do «pão da vida». Os fiéis são chamados a alimentarem-se da palavra de Deus antes de se alimentarem do Corpo de Cristo. Mais: sem o primeiro alimento, o segundo corre o risco de ficar infecundo! Não faz sentido comungar às escondidas, aproveitando o momento da comunhão, sem antes ter participado na celebração. Este é talvez um dos fundamentos mais importantes da liturgia: não há sacramento sem escutar primeiro uma ou várias leituras da Bíblia como Palavra de Deus. Só em situações extremas. E devia rever-se bem a celebração da Confissão ou Reconciliação, pois não devia escapar a esta norma, como infelizmente acontece na grande maioria dos casos.

A Liturgia da Palavra antes da liturgia do sacramento possui um significado crucial: «o sacramento não pode ser outra coisa que o cumprimento da Palavra de Deus, enquanto Palavra de amor salvador, Palavra que se faz carne até tocar o corpo, como no batismo ou nos demais sacramentos. É a Palavra que vem penetrar o corpo através da comunhão eucarística. (Cf. Chauvet, pp. 60-62)

«A Igreja cresce e constrói-se ao escutar a palavra de Deus». (Ordenação das leituras da missa, n.º 7). Aos domingos, essa palavra de Deus oferece-se em 3 leituras, uma do Antigo Testamento, a não ser no tempo pascal, e duas do Novo Testamento. A 1.ª leitura é escolhida em função do Evangelho. Não podemos esquecer que o Novo Testamento é uma «releitura do Antigo ou Primeiro Testamento, à luz da Cruz e da ressurreição de Jesus». A primeira leitura converte-se num anúncio longínquo daquilo que se proclama no Evangelho. Há, em consequência, um deslocamento do sentido original do texto, deslocamento que tem o seu eco na Tradição. Afirma Santo Agostinho: «O Novo Testamento está oculto – latente – no Antigo Testamento; o Antigo manifesta-se – torna-se patente – no Novo». (P. 63) A segunda leitura, normalmente toma-se das cartas de São Paulo e não costuma ter relação com o ‘tema’ do domingo, que é o do Evangelho e o da primeira leitura que o anuncia. O salmo não é uma leitura, mas uma oração que, muitas vezes, está relacionada com a primeira leitura.

O objetivo da Homilia é que haja uma receção fecunda das leituras, sobretudo do Evangelho, mas não só, como palavra de Deus. A homilia não tem outro objetivo que apresentar a Escritura como palavra de Deus para hoje, isto é, manifestar a sua atualidade no contexto cultural dos ouvintes. «Isto supõe um mínimo de descodificação por parte do pregador – sem cair num curso de exegese bíblica – e de recodificação em função da cultura atual. «Só assim, com essa interpretação e transposição do texto bíblico para responder à cultura atual é que o mesmo se converte em palavra de Deus para hoje, que é o que pretende ser». (Chauvet, pp. 64-65)

A Escritura é palavra de Deus consignada por escrito por inspiração do Espírito Santo (Dei Verbum, 9). Mas é uma palavra fixada. Está como morta… A leitura é já uma maneira de a ressuscitar da morte. Mas tal ressurreição só se pode considerar como tal se aquilo que está escrito ganha vida no pensamento, no coração e sobretudo na vida do leitor ou ouvinte. Só então o texto se converte em alimento que dá vida, mas de uma forma diferente, porque, ao revelar-se como Boa Notícia, convida os ouvintes ou leitores a conformara sua própria vida com aquilo que transmite por parte de Deus. (Chauvet, pp.65-66)

Carlos Vaz

Carlos Vaz

23 junho 2026