Pode uma prova mudar uma vida? Os exames nacionais já começaram e, por isso, hoje o tema é dedicado aos milhares de jovens que sentem ter nas suas mãos uma parte decisiva do futuro, porque, em muitos casos, tudo parece depender de uma ou duas provas, de uma folha de respostas, de uma caneta e de uma média que pode abrir ou fechar portas.
Caros leitores, chamamos-lhe avaliação, mas sejamos honestos: para muitos alunos, este momento é muito mais do que uma prova escrita. Nele cabem noites mal dormidas, resumos sublinhados, explicações pagas com sacrifício, famílias em silêncio pela casa e promessas feitas, em desespero, aos santos da Matemática, da Biologia, do Português ou a qualquer divindade disponível no calendário escolar, como se uma manhã pudesse decidir uma parte do futuro.
Há quem entre na sala de exame com confiança e há quem entre com medo, mas quase todos os alunos levam consigo uma mistura difícil de estudo, expectativa e ansiedade, enquanto a cabeça, que na véspera parecia saber tudo, decide às vezes fazer greve sem aviso prévio, no próprio dia do exame, a famosa “branca”. Séneca dizia que “sofremos mais na imaginação do que na realidade”, lembrando-nos que o medo antecipado pode pesar mais do que o próprio problema. E é isso que acontece a muitos alunos, que não enfrentam apenas as perguntas do exame, mas também tudo o que imaginam que pode correr mal, desde o bloqueio da memória até à média que pode baixar.
A entrada no ensino superior continua a depender de médias, décimas, vagas e ponderações. Por trás de cada número há um jovem, uma família e um sonho. Muitos querem seguir Medicina, Psicologia, Engenharia, Direito, Artes, Educação ou outro caminho onde esperam encontrar realização. Mas nem sempre entram no curso que desejam. Às vezes, não é o gosto que decide, nem a vocação, nem o sonho. É a média. E a média, convenhamos, não pergunta a ninguém se vai ser feliz.
Prezados leitores, talvez devêssemos lembrar isto mais vezes, um jovem vale muito mais do que uma nota ou um número. Kant lembrava que a pessoa deve ser sempre tratada como um fim e nunca apenas como um meio, e, por isso, quando reduzimos um aluno a uma classificação, esquecemos alguém que não procura apenas entrar num curso, mas perceber que caminho pode dar sentido à sua vida.
E é precisamente por estar em causa mais do que uma classificação que importa pensar na relação entre escolha e realização. Simone de Beauvoir escreveu que “viver é envelhecer, nada mais”, mas a sua filosofia lembra-nos também que cada pessoa se constrói através das escolhas que faz e dos projetos que assume. Ora, quando um jovem é empurrado para um curso que não queria, porque a média não lhe permitiu entrar noutro, não está apenas a mudar de plano académico. Está muitas vezes a adiar um desejo, a adaptar um sonho e a tentar convencer-se de que talvez também possa ser feliz por outro caminho.
Talvez aqui nos ajude o mito de Pandora. Quando todos os males se espalharam pelo mundo, ficou no fundo da caixa a esperança, a elpis dos gregos, não uma esperança ingénua, daquelas que espera bons resultados sem estudo ou milagres sem esforço, mas a força de continuar apesar do medo. É essa esperança que acompanha tantos alunos nestes dias, a esperança de que a prova corra bem, de que a média chegue e de que o futuro não fique preso a uma simples manhã de um exame.
Mas esta esperança não vive apenas nos alunos, vive também nas escolas, onde professores, diretores, assistentes técnicos, assistentes operacionais, vigilantes e secretariados de exame trabalham para que tudo decorra com rigor. Há salas preparadas, envelopes conferidos, pautas verificadas, atas preenchidas, horários respeitados e regras cumpridas, numa máquina discreta, mas essencial, que ano após ano garante transparência, justiça e confiança.
Uma prova pode abrir ou fechar uma porta, mas não deve fechar a esperança, porque a vida é sempre maior do que qualquer resultado. E talvez seja esta a pergunta que fica para todos nós:
- Que escola queremos quando tantos jovens sentem que tudo se decide numa prova?