Uma liturgia em que o «nós» comunitário se manifeste claramente. Para tal, é sem dúvida necessário deixar entrar na formação de todos um sopro de ar fresco. Tal formação pode dar-se, tanto em reuniões específicas como na missa de domingo. Neste caso, há a vantagem de estar em ação e de poder chegar ao maior número possível de fiéis. (Chauvet, o.c., p.57). Isto permitirá garantir o que o papa Francisco propunha com tanto fervor e empenho na «Desiderio Desideravi», sobre a formação litúrgica do povo de Deus. Para tal, é preciso que cada um tenha tal Carta Apostólica e a tenha lido, relido e assimilado muito bem.
Dela se deriva a necessidade de uma formação para a liturgia – formação que ele chama funcional, que torne mais fecunda a formação a partir da liturgia – que ele chamava essencial. (Cf. Nº 34)
A formação para a liturgia pretende difundir, fora do campo académico, de forma acessível, os numerosos e importantes frutos da investigação neste âmbito, sobretudo nos últimos anos, «para que todo o crente cresça no conhecimento do sentido teológico da liturgia». (nº 35) Mas esta formação «funcional» deve estar ao serviço da «essencial», de maneira que todo o povo de Deus viva a liturgia como o momento, não exclusivo, certamente, mas sim, privilegiado, do encontro com o Senhor». (p. 57)
Chauvet é ainda de parecer que esta formação é sobretudo necessária para a geração mais jovem de católicos que, sem se dar conta, enferma de duas das tendências mais típicas da nossa pós-modernidade: a tendência individualista, tão oposta ao «nós» eclesial que deve ter prioridade sobre o eu de cada um; e a tendência que poderíamos denominar de pietista, não no sentido pejorativo, que procura um excesso de atitudes piedosas, canções com letra e música intimistas, algo que compense as incertezas provocadas pela falta de estabilidade contemporânea. Mas também os fiéis mais habituais precisam de voltar a ouvir o que muitos esqueceram, se é que algum dia foram formados no essencial. Chauvet afirma que se trata de uma reação perfeitamente compreensível, tanto em sacerdotes como nas outras pessoas. Mas, precisamente porque compreendemos essas carências, e na medida em que as compreendemos, devemos acompanhá-los nessa abertura, tanto teológica como espiritual que propôs o Vaticano II e que o saudoso papa Francisco, inspirando-se nele, procurou promover de maneira muito assertiva.
Na comunidade a que habitualmente presido, suscitei o interesse pela mencionada Carta Apostólica, fornecendo-a a mais de 50 famílias e refletindo com elas sobre a mesma. E de maneira mais sintética, e em ação, na eucaristia dominical e também na diária. Mas estranho que muitos sacerdotes, mais idosos e mais jovens, desconheçam a própria Carta Apostólica, o que bem mostra que, infelizmente, a Liturgia não é vista como a matéria charneira que envolve Teologia, Bíblia, Patrística, Pastoral, Linguística, Literatura, Música, Arquitetura, etc.
A dificuldade do Cristianismo está em que não há Palavra de Deus sem passar pelo que está escrito. Mas, entre o que está escrito e a Palavra, há sempre uma distância que exige uma interpretação. Na Liturgia, a finalidade da homilia é propor essa interpretação que dará vida ao que está escrito, tornando-se Palavra. Também é isso que se procura alcançar com os grupos pensados para partilhar a Palavra de Deus: equipas de liturgia, grupos bíblicos, grupos de catequistas, etc. E aí ocorre o desacordo e a dificuldade de aproximar interpretações. Com efeito, além de professarmos a fé num só Deus, confessamos também que se manifesta em 3 Pessoas. Cremos num só Jesus Cristo «plenamente Deus» e tão plenamente homem que Deus, nele, se torna irreconhecível para muitos. Temos uma só bíblia, mas em dois testamentos; um só Evangelho, mas em 4 testemunhos diferentes; uma Igreja, mas que existe apenas para orientar para um mais além dela mesma, o chamado «Reino de Deus». Não há dúvida: «o cristianismo é a religião mais complexa que existe. Esse é o seu ponto débil, pois necessita de uma interpretação constante. Mas é também o seu ponto forte, porque a fé cristã é ‘inculturável’, em todas as épocas e em todas as circunstâncias». (Chauvet, p. 72)
Tentaremos ajudar a compreender por que razão o cristianismo não é uma religião do livro, mas a religião do Pão da Vida, que se exprime, manifesta e realiza em duas mesas em interação permanente: a mesa do Pão da Palavra e a mesa do Corpo de Cristo: a oração eucarística.