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A morte não é o fim de tudo

Fui há já alguns meses até uma cidade do interior do nosso país, a fim de participar no funeral de um velho amigo, que, em pouco mais de um mês, contra toda a expectativa, deixou de estar entre nós, vitimado por uma doença implacável, que o surpreendeu a si e a toda a gente da sua relação.


 

Trabalhador incansável, tinha-se reformado há pouco tempo, e preparava-se, certamente, como era seu costume, para alegrar e dar boas perspectivas, com a sua capacidade de ser amigo, a muita gente que conhecia e a quem prestava uma excelente companhia.


 

Deus não quis assim, mas de certo, ao chamá-lo para junto de Si, quis premiá-lo com o que ele merecia: uma felicidade perfeita, quer pela forma como se vive, quer ainda por outra perspectiva, difícil de imaginar por nós, que sempre nos sentimos limitados pelo tempo: é para sempre, por toda a eternidade.


 

Entre os seus conhecidos e amigos, havia alguns, nomeadamente um mais emotivo, que sobre o nosso futuro tinham uma atitude pessimista. É que, para além, da vida presente, quando esta acaba, tudo se esfuma para quem morre. Por isso, observava, com pessimismo e um certo desespero. “A injustiça é a senhora da nossa vida. Este amigo, que sempre trabalhou com honestidade e esforço incansável, tinha-se reformado há poucos meses. E não teve uma justa recompensa. Morreu, tudo acabou. E pergunto: Valeu a pena ser honesto e esforçado na sua profissão...?”


 

Fez-se um silêncio gelado. Ninguém comentou. Mas ele acrescentou: “É por isso que eu não vou na cantiga dos que pensam no Céu e em tantas outras coisas que só servem para nos iludir... A morte é o fim de todos nós. Quem morreu, nada mais pode fazer e imaginar... Acabou! Quando muito, deixar, entre os amigos, saudades e a consciência de que cumpriu honestamente os seus deveres...” E ainda acrescentou: “Como é o caso deste amigo”.


 

Uma voz feminina, com sonoridade cansada, fez-se ouvir. Era a mãe do defunto. “Felizmente, não foi isso o que eu ensinei ao meu filho. Ele aceitou a minha proposta e viveu-a intensamente toda a vida. Foi por isso que ajudou tantos amigos a orientarem o seu dia a dia, confiando em Deus e em tudo o que Ele nos tem reservado quando morremos. Estou certa de que ele, agora, está totalmente feliz junto de Deus, de Nossa Senhora, dos anjos e de toda a gente que já entrou no Reino dos Céus...” Fez-se silêncio. O amigo céptico ficou calado, talvez com um sorriso apagado, para significar, com delicadeza, que respeitava a opinião, mas não acreditava no que ela prometia. 


 

De novo, a mãe voltou ao assunto, com simplicidade. “Agora, que já tenho o meu filho no Céu, vou pedir-lhe que este seu amigo ateu se converta,,,” 


 

O visado sorriu. E recomendou: “Não perca tempo...” Respondeu-lhe: “Não, não perco tempo. Pedir pela sua conversão é um dever meu e não uma inutilidade...”


 

Uns meses mais tarde, a mãe do meu amigo recebeu um telefonema dessa pessoa. E ouviu, deliciada, uma boa novidade. Tinha-se confessado e agradecia todas as orações que rezara por ele.

P. Rui Rosas

P. Rui Rosas

16 junho 2026