Passaram já 40 anos, sobre o “caso Saltillo”). Isto é, sobre a relativamente mal sucedida presença de Portugal, no Mundial do México de 1986 (fase final), apesar de dispor de um bom lote de jogadores e de ter ganho à Inglaterra por 1-0. Um longo estágio de 40 dias numa paisagem “quase desértica” do NE do México (Saltillo); ausência de distracções, de comunicações e das famílias; divórcio da Federação, que (segundo Augusto Inácio) nem apareceu; visita de algumas prostitutas locais; discussão sobre lucros dos jogos; lesão de Bento (substituído pelo grande Damas, já em fim de carreira). Tudo isto está a ser relembrado (e aprofundado) por aquela estação de rádio cujo nome começa por “o” e que tem no meio um cochichante e conspirativo “bsv”; e cujo elemento mais influente era da extrema-esquerda trotskista no 25 de Abril (e para quem viveu aqueles tempos “amistosos”, isso não abona muito); estação que transforma alguns dos seus programas mais interessantes em versões só completadas por “podcasts”, em que o ouvinte tem de eletronicamente se identificar e de pagar. E “last but not the least”, uma estação que desde o início da guerra Moscovo-Kieve trata esse grosseiro “erro de casting” que é o actor Zelenski, como uma espécie de “Messias” (da sua religião, por certo…). Lugar que hoje parece só ser disputado pelo benemérito correligionário, Netanyahu.
Em Portugal, nunca antes se ouvira falar de Saltillo, parece…). Esta cidade, que é a capital da província nortenha de Coahuila (a qual vai até ao Rio Grande, fronteiro ao Texas) foi fundada pelos espanhóis em 1577 e fica a uns meros 80 kms de Monterey. Curiosamente, à época, ela já era para mim, um lugar “familiar”. Explico melhor; Saltillo era a cidade onde se tinha desenrolado um drama amoroso, retratado num famoso “corrido” (canção tradicional memorialista sobre uma pessoa ou evento). E eu, já desde os meus 14 anos, era um incansável conhecedor (e colecionador) de temas, quer da Música Clássica, quer da música popular (folclórica, étnica, regional) de todos os países do Mundo onde ela tivesse especial valor (e são muitos, desde Portugal à Espanha, Grã-Bretanha e Irlanda, Alemanha do sul – Tirol - Suíça, Polónia, Rep. Checa, Bósnia-Sérbia-Croácia, Roménia, Hungria, Grécia, Itália, países de língua árabe, a Mauritânia, o “corno de África”, Zanzibar, África do Sul, Índia, Indonésia, Argentina, Peru, Bolívia, Brasil, EUA, Havai e Polinésia… e o México, claro).
A 1.ª vez que ouvi cantar “Rosita Alvírez”). Como cantora de música “country” eu já conhecia a promissora Linda Ronstadt. Quando ela publicou (em “vinil”, como se diz agora) o seu 1.º sucesso mundial, “Canciones de mi padre”, corria o ano de 1987. E fiquei a saber que, apesar do sangue alemão revelado pelo apelido, ela era também de ascendência hispano-mexicana. O disco incluía temas fantásticos: “Por um amor/ Hay unos ojos/ Tú solo tú/ Los laureles/ Y ándale/ Dos arbolitos/ El sol que tú eres/ Corrido de Cananea/ La charreada/ La calandria”, etc. A este seguiu-se um 2º disco, “Mas canciones”, de valor quase igual. Porém, a 1.ª vez que ouvi Linda cantar “Rosita Alvírez” (de uma forma apaixonada, misturada com os temas “Yo soy el corrido” e “Valentín de la sierra” e ao lado de Daniel Valdez) foi numa curta sequência televisiva. O tema era famoso; e o episódio, com detalhes variáveis e ainda hoje mal fixados (há confusão com um caso de adultério de um certo outro Hipolito, ocorrido 20 anos antes…). Trata-se de um caso de violência no namoro (um desplante, uma “tampa”, “un desaire” resolvido logo a tiro, e no baile…). O matador é Hipolito, trabalhador rural, a vítima foi a bela (?) Rosita.
A canção “reza assim”). “Año de 1900, muy presente tengo yo/ en un baile de Saltillo, Rosita Alvírez murió/ Su mama se lo decia: “Rosa, esta noche no sales”/ Mama no tiengo culpa, que a mi me gusten los bailes/ Hipolito llegó al baile y a Rª se dirigió /como era la mas bonita, Rª lo desairó/ “Rª no me desaires, la gente lo vay a notar”/ Pues que dígan lo dígan, contigo no he de bailar/ Echó mano a la cintura y una pistola sacó/ y a la pobre de Rª, no mas, 3 tiros le dió/ El dia que la mataron, Rª estava de suerte/ de 3 tiros que le dieran, no mas, uno era de muerte/ la casa era colorada y estava recién pintada/ com la sangre de Rª le dieran outra pasada/ Rª ya está en el cielo, dandole conta al Creador/ Hº está en la cárcel, dando su declaración”.
Astros da canção mexicana). São numerosos. Lembro aqui a grande mas malograda Lucha Reyes (1906-44); Lola Beltrán; Ana Gabriel; Cuco Sánchez; Pedro Vargas; Hermanos Záizar; M. Aceves Mejia; Luis Aguilar; Irma Vila; Chavela Vargas; El Charro Avitía; Lucha Moreno; Lalo González; Pedro Infante; Nati Cano; Jorge Negrete, Pablo Medina… Além das inumeráveis orquestras tradicionais, os tão folclóricos “mariachis”. Um bom assunto, a investigar no Youtube.