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Quem cuida de quem cuida?

 


 

Há dias em que alguém comunica uma notícia difícil, acompanha uma despedida, segura uma conversa impossível ou ajuda outra pessoa a atravessar um dos piores momentos da sua vida. Depois, arruma a secretária, fecha a porta, entra no carro, vai buscar os filhos, faz o jantar e continua o dia como se nada tivesse acontecido. Nem sempre pensamos nisto quando falamos de cuidado.

Vivemos num tempo em que se fala muito sobre saúde mental, empatia e qualidade de vida, mas continuamos a imaginar o cuidado como um recurso inesgotável. Espera-se que alguém esteja disponível para escutar, acompanhar, organizar, decidir e continuar. Espera-se que alguém sustente quem adoece, quem envelhece, quem sofre, quem perdeu alguém ou quem atravessa momentos de maior fragilidade. Mas raramente perguntamos o que acontece a quem cuida.

Talvez porque ainda exista a ideia de que cuidar é uma característica individual. Como se algumas pessoas fossem naturalmente mais fortes, pacientes ou preparadas para suportar aquilo que os outros não conseguem carregar. Como se cuidar fosse apenas uma questão de vocação.

No entanto, cuidar também se aprende. Aprende-se na forma como crescemos, naquilo que observamos, nas palavras que recebemos e nos lugares onde somos autorizados – ou não – a falar sobre sofrimento, limite e fragilidade. Aprende-se na experiência concreta de acompanhar vidas reais e essa experiência deixa marcas.

Aquilo que sentimos nunca é apenas nosso. Também o cuidado tem contexto, cultura e história. Existem expectativas sobre quem deve cuidar, como deve cuidar e até sobre quanto sofrimento é aceitável sentir enquanto se cuida. Muitas vezes, aquilo que interpretamos como resistência ou capacidade de entrega resulta também da forma como organizamos coletivamente o cuidado e do valor que atribuímos a quem o exerce.

Penso que, por isso, uma das questões mais importantes do nosso tempo seja esta: temos ensinado pessoas a fazer, mas temos criado poucos espaços para elaborar aquilo que vivem. Precisamos de criar mais lugares de encontro, conversas orientadas e momentos de reflexão onde profissionais, cuidadores e comunidade possam pensar juntos aquilo que vivem. Não para encontrar respostas perfeitas, mas para descobrir linguagem, reconhecimento e formas mais sustentáveis de cuidar. Estes espaços permitem algo que fazemos cada vez menos: partilhar experiência sem ter imediatamente de a resolver. Há aprendizagens que só acontecem quando percebemos que aquilo que sentimos não é falha individual, mas parte da experiência humana de estar com o outro.

Cuidar não significa saber tudo, nem nunca se cansar. Significa entrar numa relação humana onde aquilo que acontece ao outro também nos atravessa. Por isso, cuidar de quem cuida não é afastar o sofrimento nem proteger de todas as emoções difíceis. É reconhecer que também quem sustenta os outros precisa de espaço para parar, falar, escutar e dar sentido àquilo que vive porque acompanhar a dor dos outros não impede ninguém de precisar, também, de cuidado.

Uma sociedade verdadeiramente cuidadora não é aquela que encontra pessoas capazes de suportar tudo em silêncio, mas aquela que aprende a cuidar também de quem cuida.



 


*Socióloga do Luto98
Doutoranda em Sociologia | ICS UMinho

Clarisse Queirós

Clarisse Queirós

15 junho 2026