Há mais de vinte anos que calço umas luvas e entro em casas de pessoas que já
viveram mais do que ainda têm por viver. Aprendi, nesse tempo, uma coisa que os manuais não ensinam bem: envelhecer não é uma doença. É a continuação de uma vida. O problema, quando existe, está do nosso lado, no modo como organizamos os cuidados, as casas, as ruas e até o afeto para um tempo de vida que já não é o de há cinquenta anos.
A ideia de que envelhecer é ficar doente ou dependente já não faz sentido.
Hoje, o grande desafio da saúde pública não é apenas dar mais anos à vida, mas sim “dar mais vida aos anos”.
Cuidar de quem envelhece não é só tarefa dos profissionais de saúde, é tarefa de toda a comunidade, e nós, enfermeiros de família, vemos isso em primeira mão quando entramos numa casa e percebemos, rapidamente, se ali há rede de apoio ou só solidão bem disfarçada.
O nosso papel ultrapassa o cuidar na doença. A nossa verdadeira missão é capacitar os utentes para que vivam o processo de envelhecimento com saúde, autonomia e dignidade.
Essa independência conquista-se nas coisas simples do dia a dia e constrói-se através de pequenos hábitos. Manter o corpo em movimento, como fazer uma caminhada ou uns exercícios adaptados, ajuda a manter a força muscular e o equilíbrio que, em simultâneo com uma alimentação cuidada e hidratação consciente (beber água,
mesmo quando a sede já não se faz sentir), é meio caminho andado para manter a vitalidade física.
Mas o verdadeiro segredo está no autocuidado.
Promover a autonomia significa incentivar o utente a vestir-se, a cozinhar e a gerir a sua própria rotina, intervindo apenas quando estritamente necessário. Cada tarefa realizada de forma autónoma é uma vitória contra a fragilidade.
Também de nada serve incentivar a mobilidade se a casa apresentar obstáculos e
perigos. Pequenas mudanças, como tirar os tapetes soltos ou colocar barras de apoio na casa de banho, evitam quedas e dão a segurança necessária para circular sem medo.
Além disso, as ajudas técnicas, como os andarilhos ou as canadianas, devem ser apresentadas como ferramentas de emancipação e nunca como símbolos de incapacidade.
Paralelamente, o estímulo cognitivo e o combate ao isolamento social são vitais. Um cérebro ativo através da leitura e uma vida social preenchida em comunidade são os melhores antídotos contra a depressão e o declínio cognitivo. Em suma, capacitar o idoso é devolver-lhe o controlo da sua própria história. O olhar da enfermagem deve estar focado no potencial da pessoa e não só nas suas limitações.
Talvez o que precise de mudar não seja apenas a organização dos serviços, mas o
olhar. Enquanto falarmos do envelhecimento como perda de capacidades, de papel na sociedade, de utilidade, continuaremos a tratar as pessoas mais velhas como um
encargo. Prefiro vê-las como as vejo todos os dias: pessoas com uma vida inteira de experiência, que merecem continuar a decidir por si próprias até ao fim.
É esse, afinal, o único cuidado que verdadeiramente importa.