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A IA e a urgência de reaprender a educar



 

O debate sobre o ensino superior regressa ciclicamente à praça pública, quase sempre sob a forma de uma acusação recorrente: a universidade está desfasada da realidade. A emergência da IA apenas intensificou essa perceção, como se a tecnologia tivesse finalmente exposto uma falha estrutural que durante anos se preferiu ignorar. Mas talvez o problema não seja apenas de atraso. Talvez seja mais profundo e diga respeito ao próprio modo como temos vindo a pensar a educação. A questão coloca-se hoje com uma nova urgência. Se sistemas de IA conseguem produzir textos, analisar dados, sintetizar informação e executar tarefas cognitivas complexas, o que significa afinal “saber”? E, sobretudo, o que deve significar “ensinar”? A universidade continua, em muitos casos, presa a modelos pedagógicos centrados na transmissão e reprodução de conhecimento, quando o próprio conhecimento deixou de ser escasso, fixo ou exclusivamente humano. É aqui que o pensamento de Edgar Morin se torna particularmente pertinente. A sua crítica à fragmentação do saber e à incapacidade das instituições educativas de pensar a complexidade do real permanece atual. Formam-se especialistas altamente competentes em campos estreitos, mas frequentemente incapazes de integrar perspetivas, compreender sistemas ou lidar com a incerteza. Ora, a inteligência artificial não resolve esta limitação; antes a torna mais evidente. Com efeito, a IA não substitui apenas tarefas. Ela desloca o eixo do valor educativo. Se a informação está acessível, se a produção de conteúdos pode ser automatizada e se a análise técnica pode ser acelerada por sistemas inteligentes, então o centro da educação deixa de ser o conteúdo e passa a ser o sentido. O que distingue o humano não é já o acesso ao saber, mas a capacidade de o interpretar, hierarquizar e orientar eticamente. Neste contexto, a reflexão do atual Papa Leão XIV sobre IA e dignidade humana introduz um elemento decisivo no debate. A tecnologia não é neutra no seu impacto social e antropológico. Ela molda relações, redefine práticas e influencia decisões. A questão já não é apenas o que a IA pode fazer, mas o que a sua utilização faz ao humano. Uma educação que ignore esta dimensão corre o risco de formar técnicos eficientes, mas pobres em discernimento ético e consciência crítica. O problema do ensino superior não se reduz, portanto, a uma alegada distância em relação ao mercado de trabalho. Essa leitura, embora comum, é insuficiente. O verdadeiro desafio é a inadequação de um modelo educativo pensado para um mundo mais estável, previsível e compartimentado, perante uma realidade marcada pela aceleração tecnológica, pela incerteza e pela interdependência global. A inteligência artificial funciona, neste sentido, como um espelho desconfortável. Não inventa a crise da educação, mas torna-a impossível de disfarçar. Expõe a fragilidade de sistemas de avaliação centrados na reprodução de respostas e questiona a própria noção de autoria, esforço e aprendizagem. Obriga-nos a perguntar se estamos a ensinar a pensar ou apenas a repetir formas cada vez mais sofisticadas de produção de conteúdo. É neste ponto que a expressão “reaprender a educar” ganha sentido. Não se trata de abandonar a universidade, mas de a repensar radicalmente. Reaprender a educar significa aceitar que o conhecimento não é apenas acumulação, mas relação; não é apenas técnica, mas interpretação; não é apenas especialização, mas articulação. A universidade do futuro não será necessariamente aquela que mais tecnologia incorpora, mas aquela que melhor compreende o humano numa época em que o humano já não detém o monopólio da produção de conhecimento. Entre a complexidade de Morin e a preocupação ética do atual magistério do Papa Leão XIV, desenha-se uma exigência comum: a de recolocar a pessoa no centro de um mundo em aceleração. A inteligência artificial não veio substituir a educação. Veio exigir que ela seja repensada desde a raiz. E essa talvez seja a verdadeira urgência do nosso tempo.



 

Paulo Sousa

Paulo Sousa

14 junho 2026