Imagine que a sua obra-prima, a que passou a vida a construir, começa a construir-se a si própria. E que, a certo ponto, percebe que não consegue acompanhar o ritmo do que criou.
É exatamente isto que está a acontecer num dos laboratórios de inteligência artificial mais avançados do mundo.
A Anthropic, empresa americana criadora dos modelos Claude, publicou já no início de junho de 2026 um documento com um título que dispensa explicações. Chamou-lhe "When AI builds itself", ou seja, quando a IA se constrói a ela própria. O que ali se descreve não é ficção científica. É o relatório interno de uma empresa que trabalha com estas ferramentas todos os dias.
Os números são claros. Em fevereiro de 2025, a IA escrevia menos de 1% do código dos sistemas da própria Anthropic. Em maio de 2026, esse valor ultrapassou os 80%. Os engenheiros da empresa produzem hoje oito vezes mais código por dia do que há dois anos. Não porque trabalham mais horas. Mas porque a IA faz a maior parte do trabalho.
O conceito no centro deste debate chama-se melhoria recursiva. É uma ideia simples de explicar. Imagine um aprendiz que, com o tempo, começa a ensinar o mestre. Depois ensina o seu próprio sucessor. E esse sucessor ensina o seguinte, cada vez mais depressa, cada vez melhor, com menos supervisão humana. É este o ciclo que a Anthropic considera possível, a breve prazo, nos sistemas de IA mais avançados. A empresa diz que ainda não chegámos a esse ponto. Mas avisa que pode chegar muito antes do que qualquer instituição está preparada para gerir.
Há mais um dado que vale a pena reter. Nos testes realizados no outono passado, o melhor modelo da Anthropic superou a escolha humana em 51% das decisões de investigação científica. Em abril de 2026, esse valor tinha subido para 64%. Quatro meses. Treze pontos percentuais. A que ritmo chegará aos 80%?
Foi por tudo isto que a empresa fez algo que raramente se vê neste sector. Propôs uma pausa. Não uma paragem unilateral, que não serviria de nada. Uma pausa coordenada, com todos os principais laboratórios do mundo a pararem ao mesmo tempo, em condições que possam ser verificadas. Porque se apenas um parar, os outros avançam. E quem parou fica para trás sem que o mundo fique mais seguro.
O dilema é real e não tem saída fácil. Avançar rápido significa arriscar perder o controlo sobre aquilo que estamos a construir. Abrandar exige uma coordenação global entre países e empresas concorrentes, algo que a história nos diz ser muito difícil de alcançar. E não fazer nada é também uma escolha, com as suas próprias consequências.
Não é a primeira vez que se tenta este caminho. Em 2023, uma carta aberta assinada por mais de mil pessoas, entre investigadores e figuras públicas da tecnologia, pedia uma pausa de seis meses no desenvolvimento de sistemas mais poderosos que o GPT-4. Não aconteceu nada. A corrida continuou. O problema hoje é maior, a velocidade é superior e os recursos envolvidos são incomparavelmente maiores.
Há quem veja nesta proposta uma estratégia de mercado. A Anthropic está em processo de entrada em bolsa, com uma avaliação que ronda um bilião de dólares. Congelar o sector quando já se é líder tem vantagens competitivas óbvias. É uma leitura legítima. Mas não invalida o argumento de fundo. Os dados são reais. A aceleração é mensurável. E a pergunta que a empresa coloca ao mundo é genuína. Estamos a construir algo que conseguimos ainda compreender e controlar?
Toffler escreveu em 1970 que demasiada mudança em demasiado pouco tempo seria a doença do século XXI. Nunca essa visão esteve tão próxima da realidade. O que Toffler não podia imaginar é que, chegados aqui, seria a própria tecnologia a pedir-nos para travar, respirar e pensar.
A Anthropic não tem a resposta. Mas teve a honestidade de colocar a questão publicamente. E pelo menos isso, já vale algo!
Fonte: https://www.anthropic.com/institute/recursive-self-improvement