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Geração sanduíche

 

 



 

De forma recorrente se vai tentando rotular cada geração, tendo em conta as circunstâncias, as caraterísticas (positivas ou menos boas), as condicionantes (sociais, intelectuais ou culturais) e até por comparação com outras gerações. Agora encontrei mais uma ‘geração’, desta vez dita ‘sanduíche’. O que é e como a podemos qualificar? Quais os limites e/ou as limitações, dizendo pela positiva: o termo ‘a quo’ (início – desde quando) e o termo ‘ad quem’ (final – até quando) no tempo de validade? 



 

1. Numa publicação de origem católica li: «se tem entre 35 e 55 anos, cuida dos seus pais na velhice e por sua vez dos seus filhos, então pertence à geração sanduíche, qual é o desafio invisível? Entre levar as crianças para a escola, trabalhar, cuidar de tarefas domésticas e acompanhar os pais idosos… milhares de adultos vivem presos entre duas gerações. Este fenómeno é conhecido como ‘geração sanduíche’, uma realidade cada vez mais comum que apresenta desafios emocionais, económicos e espirituais».

No mesmo texto lido se apresentavam as caraterísticas desta ‘geração sanduíche’ e se sugerem modos de enfrentar esta dupla vertente de tarefas para com os mais novos, os filhos, e os mais velhos, os pais. As pessoas que pertencem a essa geração adquirem responsabilidades que se dividem em dois aspetos distintos, de forma ascendente, ou seja, para com seus pais e por outro lado, de forma descendente para com os filhos. Essas responsabilidades não são apenas de cuidado, mas em muitas ocasiões também são de forma económica, emocional e até mesmo de ajuda em procedimentos médicos, legais ou em decisões familiares.



 

2. As idades que balizam esta ‘geração sanduíche’ – 35 e 55 anos – fazem-nos refletir sobre as responsabilidades desses que, num quadro abrangente de vinte anos, em que têm de saber olhar para a frente e ver atentamente para trás: nalguns casos funcionam como pais dos pais e filhos dos filhos, isto é, sobre os pais cuidam deles e para com os filhos quase têm de se submeter aos caprichos dos rebentos. Numa leitura positiva destas cumplicidades poderemos considerar que a ‘geração sanduíche’ prepara os filhos, pelo cuidado com que veem a ser cuidados os seus avós, aliando isso à importância do sacrifício dos pais para com os filhos… atendendo a que cada membro da família não é indiferente, seja qual for a etapa da vida…



 

3. Mais do que rótulos ou cognomes importa que saibamos enquadrar a família nas suas diversas etapas de crescimento e de maturidade. Se tivermos ainda em conta a longevidade crescente, então, teremos de estar melhor preparados para que as gerações se entrecruzem numa aferição de aprendizagens para uma maturidade sempre aberta à novidade sem desconsiderar as novas ferramentas em ebulição. Se atendermos ainda à crescente vitalidade dos ‘reformados’ – tanto de homens como de mulheres – teremos de encontrar mecanismos de ocupação dos dias para além dos de deixar-passar-o-tempo… Urge que as associações, instituições de solidariedade e religiosas, entidades desportivas ou mesmo autarquias locais estejam atentas à potencialidade de tantas pessoas ‘desocupadas’ de atividades profissionais para que lhes possam propor tempos de terapia ocupacional em favor dos outros e como recursos de compromisso em favor do comunitário.



 

4. Já vimos muitas e diversificadas propostas para os mais velhos no âmbito físico-biológico, mas precisamos de outros campos de ação, desde o psicológico até ao cultural, passando pelas questões de natureza espiritual. Tem faltado ousadia e espírito de criatividade às Igrejas para saírem dos esquemas ‘doutrinais’ básicos dirigidos – quase só – à infância e à adolescência. É preciso que os mais velhos possamos conhecer um Deus diferente desse que lhes foi apresentado nas idades mais infantis. Porque não se organizam tempos de convívio e de partilha de questões de fé para os mais velhos, agora que eles/elas têm tempo sem ocupação profissional? Poderíamos ter experiências onde mais do que querer dar lições de religião se possam criar oportunidades de conhecimento bíblico-teológico básico e simples.

 

5. Tal como na sanduíche, o que importa não são as partes, mas o miolo…

 



 


 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

15 junho 2026