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Com a Senhora no olhar e Jesus no coração

 

O Mateus é não apenas o encanto dos seus pais e avós, como também um dos meninos mais queridos da terra. Os vizinhos, a professora e a catequista gostam muito dele. 

Há uns meses atrás, pediu ao Pároco que a imagem de Nossa Senhora fosse ao seu lugar. No ano anterior, o Mês de Maria tinha começado lá e, depois de ter ajudado nos adornos, assumiu, com um entusiasmo indescritível, a venda das velas. Como, neste ano, se impunha variar um pouco, não seria de lá que a Senhora partiria, mas por lá passaria, na conclusão do Mês. Quando soube, o Mateus ficou feliz e começou a sonhar com esse dia.

Liderados pela Filipa, os moradores do lugar prepararam uma receção simples, mas bonita e cheia de carinho. Era preciso limpar o largo, colocar flores e estender algumas fitas coloridas. Na manhã desse dia, ao ver a Filipa atarefada, o Mateus aproximou-se e perguntou:

- “Filipa, posso ajudar?”

Os olhos dela humedeceram-se, ao mesmo tempo que se iluminaram.

- “Claro que sim! Toda a ajuda é bem-vinda. E tu ainda mais, meu menino querido”.

Com criatividade e boa vontade, tudo ficou harmonioso. O Mateus colaborou, com alegria e devoção, imaginando a felicidade da Senhora, quando ali chegasse. Não o fazia para receber elogios nem para ser visto, mas porque sentia alegria em ajudar e sobretudo porque gosta muito da Senhora, cuja imagem, desde muito pequenino, o encanta.

Quando, na tarde desse dia, os moradores saíram à rua para esperar a Senhora, não viram a Filipa nem o Mateus. Perguntaram por eles e alguém lhes disse que tinham ido à Igreja. Pouco depois, a imagem chegou, num andor e aos ombros de seis jovens. O silêncio respeitoso envolveu a todos e as flores perfumavam o ambiente. A Filipa sorriu e segredou ao Mateus:

- “Sem o teu entusiasmo e a tua ajuda não estaria assim”.

O Mateus sorriu de volta. Sentia-se feliz! Olhava para a imagem e lembrava-se do que tinha aprendido na catequese: Maria tudo merece e os gestos de bondade, mesmo os mais pequenos, são uma forma de mostrar amor a Deus e aos outros.

Enquanto que os restantes meninos do lugar por lá ficaram, o Mateus acompanhou a Senhora até à Igreja Matriz, onde rezou e tirou uma foto, sentado no andor, junto da Senhora.

Naquela noite, custou-lhe a adormecer... a Senhora não lhe saía dos olhos. Imaginando-se já no dia da Primeira Comunhão, deu consigo a pensar que a preparação para receber Jesus não acontecia apenas nas sessões de catequese ou nas orações, mas também no caminhar e no cantar das procissões, bem como nas ações diárias, quando se ajuda com generosidade e alegria. No seu pensar de criança, intuía que estava a dar passos importante na preparação para tão grande dia.

Quinze dias se passaram e chegou o momento. O Mateus acordou antes do despertador. Sentia no peito uma agitação boa, parecida com a que tinha antes de abrir um presente de aniversário, mas diferente. Era como se estivesse à espera de alguém e não de alguma coisa!

Na catequese, tinham-lhe explicado que a Eucaristia não era apenas um símbolo vazio. “Quando recebemos Jesus”, dissera a catequista, “recebemos o próprio Cristo, que se dá a nós como alimento”. O Mateus pensou muito nisso. Não entendia tudo, claro, mas imaginava o coração como uma casa com janelas fechadas: receber Jesus era como abrir as portadas ao sol da manhã. A casa continuava a mesma, mas a luz mudava tudo o que há lá dentro.

Vestiu-se devagar, para não amarrotar a camisa. Entretanto, a mãe perguntou-lhe:

- “Nervoso? Quando chegares ao altar, isso passa”.

No caminho para a igreja, as ruas pareciam-lhe mais claras do que o habitual. Quando entrou na Igreja, a luz e o cheiro das flores envolveram-no como o abraço de um amigo. 

A Missa começou. O Mateus escutava com atenção e respondia às orações. O momento aproximava-se e ele sentia-o no corpo inteiro, como se cada batida do coração fosse um passo até ao altar. Chegou, então, a hora de comungar. Caminhou pelo corredor central, focado apenas no sacerdote e no brilho dourado da píxide. Estendeu as mãos, pequenas e cuidadosas, e recebeu a hóstia consagrada. Levou-a à boca e, por um instante, tudo à volta parecia abrandar: os movimentos das pessoas e o próprio pensamento.

Voltou para o banco, ajoelhou-se e fechou os olhos. A alegria chegou devagar, como a claridade que cresce antes do nascer do sol. Não era uma explosão, mas uma paz luminosa. Abstraído de tudo, lembrou-se dos avós a rezar, da mãe a consolá-lo quando chorava, do pai a ajudá-lo a aprender a andar de bicicleta, dos colegas com quem, às vezes, brigava e depois fazia as pazes. Percebeu que Jesus não entra no coração como um visitante que ocupa espaço, mas como a água em terra seca: sem fazer barulho e mudando tudo por dentro.

Depois da Missa, toda a gente queria fotografias. Os primos corriam à volta das flores do adro e o avô Vítor enxugava os olhos, fingindo que tinha entrado pó. O Mateus sorria, mas guardava consigo aquele instante diante do altar, como quem protege uma chama do vento.

Na festa, houve boa comida, bolo, risos e barulho. Quando tudo acabou, o Mateus voltou a casa, cansado, mas feliz. Saiu sozinho para o quintal, sentou-se num degrau e pensou:

- “Hoje Jesus veio até mim. Não porque eu seja perfeito, mas porque me ama”.

Sentiu, então, uma vontade enorme de fazer coisas boas: pedir desculpa ao colega com quem implicara na escola, ajudar mais em casa, rezar pelos amigos, visitar quem está só. Compreendeu que a alegria da Comunhão não é um troféu para guardar numa caixa, mas uma semente para lançar à terra. E as sementes, quando encontram terra boa, começam a crescer.

A primeira estrela aparecia já sobre os telhados. O Mateus voltou a casa, levando no coração uma certeza tranquila: aquele dia estava a acabar, mas começava já a dar frutos. Intuiu que, quando se celebra um dia especial, todos os dias devem tornar-se especiais. E, desde então, o Mateus tem vivido feliz, com a Senhora no olhar e Jesus no coração.


 

* Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

15 junho 2026