Há décadas - tempos da minha meninice - era frequente ver-se pinturas em casas particulares ou nalgumas igrejas, onde se via o diabo ou os anjos de Deus à espera que os moribundos dessem o último suspiro.
Essas obras, apelavam aos vivos para que durante as suas vidas tivessem cuidados com a saúde espiritual e das relações com os outros e Deus, conforme se lê em 2Pd3,12-15a.17-18.
Então, o quadro do diabo, de forquilha em punho, cornos afiados e rabo empinado, aguardava atenciosamente pela sua (possível) presa, isto é, pela alma prestes a partir, quer fosse de pobre ou não, feliz ou sofredor da vida passada.
Hoje, que bem conheço os homens e o diabo, não posso deixar de ironizar face a semelhantes pinturas de então, uma vez que ao diabo nunca lhe pertencerão os pobres, os simples e os doridos da vida.
Ao diabo interessa-lhe outro género de homens.
Como uns Hitler’s ditadores e carniceiros; uns Lenines, que julgavam os homens selvagens e que só eles os podiam dominar com todo o ódio que lhes mereciam; uns avarentos que nada dão, sendo a antítese da caridade; uns ricos selvagens, predadores prudentes, que durante o dia e a noite programam as formas de rapacear os outros; certos advogados, que por oportunismo se tornam açambarcadores; uns profissionais de saúde porque receiam o milagre e, aqueles, ao pensar que morrem de fome, não se importam de alugar a língua para subtrair aos culpados o castigo dos seus actos, bem como certos políticos rapaces, que não passando de maus agentes funerários, atiram o povo para as entranhas da terra, porque não cumprem as leis.
Neste mundo confuso vivem alguns milhões sem Deus nas suas vidas.
Por isso, a duplicidade no homem de hoje é tão visível que, tantos, já nem a si mesmos se surpreendem. Parecem ter duas almas: a que actua de dia e a que actua na noite.
A humanidade está presentemente mais mal que bem.
O Mundo tem problemas graves, que alguns teimam em não deixar resolver por obediência às teorias económicas caducas e a ideais de (i) pequeno.
Políticos? Parlamento? São pessoas e locais onde uns se mostram, onde outros se exibem e onde muito se ganha. Autêntico parque de exposições, sem a ideologia do bem-comum, onde todos vendem, ninguém compra e muito pouco se faz.
Toda esta gente, todos estes homens da noite, actuam de noite.
Uns em nome do comunismo, do fascismo, do materialismo ateu, da maçonaria etc., desprezando estes noctívagos sem luar, as leis naturais, os direitos do homem e a vontade de Deus.
Actuam como artilheiros nos Parlamentos contra os débeis da sociedade.
Colocam-lhes as amarras da prepotência, tal como fizeram à pessoa do italiano Rocco Buttiglione, por ser católico e não lhe darem a liberdade de denunciar actos e situações que foram condenados pelo próprio Cristo.
Outros homens, de alma desabitada - que impondo o que lhes apetece pelo poder do dinheiro – não passam de infecundos, fracassados e mesquinhos. Vivem na sombra, agitam-se na sombra e vivem segundo a sombra, porque homens vendidos/cadeados ao que nunca lhes pertenceu.
Os outros, os que trabalham de dia ganhando o pão que bem saboreiam à noite, são apontados e preteridos por defenderem a paz, o bem comum, a disciplina e a justiça social, o homem todo, direitos e Deus que, por serem valores de fé e de verticalidade, provocam nos homens da noite o deserto interior e a frustração.
E assim se canta o fado de cinto colado à barriga e, esta, às costelas. Quanto ao presente e ao futuro de Portugal, quem vier atrás que resolva, pensam eles. É que os políticos e os Governos da benzina, em pouco tempo se refazem: quer na carteira, (corrupção) quer na política de tasca à portuguesa.
Tudo aceitamos, somos assim. Temos os melhores ministros da Europa.
Os mais inteligentes, mais sábios, os mais idiotas, isto é, com melhores ideias, os mais sacrificados, os que menos ganham e os que menos rapacidade fazem. E então, do alto da cátedra, do alto pico das suas inteligências, afirmam e avisam toda a lorpalhada:
“connosco, para se resolverem os problemas económicos, apenas é preciso dinheiro!!!”
Apesar de tudo, destes lamentos sem som, sei que partirei, um dia destes meus tempos para outro tempo, abraçando e recomendando Portugal de Santa Maria, sem que o tempo deste tempo, o homem se aperceba. E enquanto viver o tempo deste tempo - como Torga – testemunharei que “a minha força é o mapa de Portugal”.
Os homens da noite, das sombras, podem comprar tudo e terem o mundo a seus pés, mas nunca comprarão o meu tempo, que é tempo de Deus.
(O autor segue o acordo ortográfico de 1990)