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O “pináculo da felicidade”

 

 



 

Conta-se que na Rússia um cidadão local decidiu emigrar. Por isso, foi tratar do passaporte, tirar as fotos do costume e de toda a papelada. Depois de tudo entregue, lá foi chamado para a entrevista da praxe, tendo-lhe sido preguntado: 

Então você quer emigrar? – Ao que o emigrante lhe foi respondendo: – “sim, quero tentar a minha sorte noutro lado”. – Mas porquê? Você não gosta do nosso país? – “Não me posso queixar”. – Não me diga que não gosta da nossa comida? – “Não me posso queixar”. – Será do tempo, você não gosta do nosso clima? – “Não me posso queixar”. – Diga lá só aqui entre nós dois, você não gosta é mesmo dos nossos políticos, não é? – “Não me posso queixar”. – Então homem se não tem queixa de nada, por que raio você quer emigrar? – “É que lá fora eu posso queixar-me”.

Lembrei-me de trazer este caricato episódio por ter ouvido em sede Parlamentar algumas atoardas, proferidas pela única deputada feminina, do Partido Comunista Português (PCP) dizendo, alto e bom som, que a União Soviética (US) infelizmente acabou há muitos anos”. Justificando o dito com o facto de ter havido, nessa altura, avanços extraordinários para o povo. Afirmação, essa, que equivale a dizer-se que a ditadura em Portugal, infelizmente, terminou. Sim, porque, afinal, é de regimes musculados que se trata, em que a democracia e liberdade não passavam de quimeras.

Depois, temos um PCP que ainda não se libertou do cunhalismo, criado à imagem e semelhança do seu antigo líder e fundador. Um homem anti NATO e anti União Europeia que, embora evitasse referi-lo, teve em mente instalar no nosso país a ditadura do proletariado. Havendo, ainda hoje, muita coisa por explicar acerca da sua – algo enigmática – figura. Pois do muito que se especulou a seu respeito pouco se sabe. Muito por culpa do jornalismo de investigação que se colou a ele. Ficando por esclarecer não só a sua relação com Moscovo, como com as maquias que o Partido recebia para alimentar os defensores dos interesses soviéticos nas ex-colónias portuguesas. 

Daí, eu duvidar que apenas tenha vivido com um salário equivalente a 517,77€ – segundo referiu a Sábado, em 2010, por altura do 5.º aniversário da sua morte – que lhe era atribuído pelo Partido que era quem o vestia e calçava. Já quanto às viagens que efetuava dizia ser o seu benfeitor, Brejnev, quem lhe cedia um avião privado. Uma forma de fazer ver ao povo que não andava na política para se governar. Mas que fez do PCP dono de um invejável património imobiliário nosso país, é inegável. 

Ora, eu sei que o pessoal afeto a algumas forças políticas de esquerda acha que o período soviético foi o “pináculo da felicidade”. Só que na realidade, tanto o comunismo como o nazismo carregam às costas muitos milhões de mortos. Ou será que uns não passam de uma invenção reacionária e que os outros foram bem executados? 

Quem deixou de se sentir feliz no meio dos comunistas foi a Zita Seabra e outros dissidentes. Facto que provocou algum azedume aos atuais dirigentes do PCP, como se viu por ocasião da morte de Carlos Brito. Um lutador contra o Estado Novo, que muito deu ao partido nas candidaturas e cargos que ocupou, acabando pouco reconhecido pelos seus congéneres. Numa postura não muito diferente da do camarada Vladimir Putin. 

Liberdade dentro da antiga URSS? Eu, que venho desse período, nunca ouvi, nem li, uma só notícia sobre qualquer greve e muito menos geral. Enquanto quem as fomenta por cá é o braço político do PCP. O que me leva a pensar que se não fosse a atividade Sindical da CGTP, a erguer muralhas entre empregadores e trabalhadores, o Partido já nem existia.

Enfim, se há gente saudosa do finado salazarismo, também a tal senhora deputada sonha com o Estalinismo bolchevique, em Portugal. Nostálgica que está das deportações para os gélidos “gulags” siberianos, cuja receita continua com o russo Putin. Desta vez, inovando para o envenenamento dos seus opositores e abate de aeronaves em que que eles viajem.

Narciso Mendes

Narciso Mendes

1 junho 2026