Há uma semana atrás, no dia 25 de maio, desloquei-me a Poço do Canto1, freguesia do concelho da Mêda e distrito da Guarda2, com cerca de 300 habitantes, que tem como aldeias anexas Cancelos de Baixo, Cancelos de Cima, Sequeiros e Vale de Porco. Aproveitando uma pausa letiva, já lá tinha ido, nos dias 19 e 20 do passado mês de fevereiro, com o objetivo de visitar o Pároco, Padre João Miguel Pereira, que foi meu aluno na Faculdade de Teologia e que, sob a minha orientação, elaborou a sua tese de Mestrado. Num e noutro caso, fiz a experiência da tranquilidade da região e do acolhimento beirão e não será necessário dizer que me senti em casa.
Se, da primeira vez, fui para visitar e conhecer (nunca tinha andado por aqueles lados!), desta fui para pregar e participar na procissão de encerramento da mais importante festa da terra, a do Espírito Santo3. Na sétima semana da Páscoa, coincidindo com o Pentecostes, esta festa é uma das tradições religiosas e comunitárias mais marcantes da freguesia e está profundamente ligada à identidade local: as celebrações religiosas (missas solenes e procissões) misturam-se com o convívio da aldeia (encontro das famílias emigradas, refeições comunitárias e animação popular) e emprestam-lhe um tom não só festivo como também acolhedor.
A Festa do Espírito Santo inscreve-se no âmbito das celebrações tradicionais do interior beirão que mistura religião, identidade comunitária e costumes muito antigos4. Um dos aspetos mais singulares é exatamente um costume que ainda hoje se mantém: do alto do telhado da Igreja Paroquial, são lançados para a população que no adro se congrega pequenos pães benzidos. As pessoas apanham-nos e levam-nos para casa como símbolo de bênção, de caridade e de proteção. Segundo a tradição local, esses pães representam as “línguas como de fogo” do Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos (cfr. At 2, 3). Informações colhidas no local dizem-nos que se trata de um ritual que poderá remontar ao século XIV, quando o culto ao Espírito Santo ganhou grande importância em Portugal5.
Apesar de ser em Cancelos de Cima que existe uma capela dedicada ao Espírito Santo, o epicentro da festa é a Igreja Paroquial, dedicada a Nossa Senhora do Pranto6 (Senhora das Dores), a padroeira da Paróquia. Construída no final do século XVIII, apresenta, no exterior, um estilo austero, mas o interior é rico, destacando-se a artística talha dourada, de estilo barroco, que reveste o arco cruzeiro7, e o retábulo do altar-mor. As janelas da Capela-Mor remetem para a época joanina (estilo típico do reinado de D. João V) e a sacristia abriga um lavabo histórico que foi mandado reconstruir pelo comendador de Ranhados, exibindo uma inscrição com a data de 1794.
No fim da Procissão, que é também o fim da festa, a Comissão ofereceu o jantar a todos os presentes. Devo dizer que o rancho, prato tradicional da gastronomia portuguesa, estava delicioso e que o vinho era também de grande qualidade. Voltei a sentir-me em casa, também porque percebi que, dos mais velhos aos mais novos, todos estavam contentes e agradecidos pelos muitos quilómetros que percorri (cerca de 230 quilómetros separam Braga de Poço do Canto) para partilhar com eles a fé e a festa. Há sacrifícios que valem muito a pena!
Parabéns, povo de Poço do Canto, pela bela Festa do Espírito Santo, vivida com ternura e encanto.
1 O nome da terra poderá ter a ver com uma nascente situada junto da atual Igreja Paroquial. A povoação terá tido origem no antigo castro do Monte de Santa Columba, de onde se avista uma enorme região desde terras de além Douro até Espanha e, mais para sul, até à Serra da Estrela. Pertenceu ao concelho de Ranhados, mas foi anexada ao concelho da Mêda, em 6 de novembro de 1836. Marcado pelo seu contexto rural duriense, a freguesia de Poço do Canto é uma enorme produtora de azeite e de vinhos do Douro. A empresa mais famosa é a Vinilourenço).
2 As Paróquias que se situam nos limites do concelho da Mêda pertencem à Diocese de Lamego.
3 O andor que preside a esta procissão é o da Santíssima Trindade: Deus Pai sustenta Cristo crucificado, com a pomba do Espírito Santo entre ambos. Essa iconografia tornou-se comum nas procissões, pois ensina visualmente ao povo o mistério trinitário. E não admira que seja assim porque, na doutrina cristã, o Espírito Santo não é visto isoladamente, mas como a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Celebrar o Espírito Santo é, ao mesmo tempo, celebrar o mistério da Santíssima Trindade, cuja imagem simboliza a unidade divina.
4 Na região do Minho, a devoção ao Espírito Santo não é tão frequente. Mesmo assim, há dois locais onde ela se faz sentir: em Paredes de Coura (a Real Confraria do Divino Espírito Santo é das mais antigas, maiores e mais ricas do país) e em Nogueira, Braga, onde também se faz a distribuição simbólica do pão.
5 Implantadas por D. Dinis e sua esposa, a rainha Santa Isabel, “as Festas do Império, ou da Coroação do Espírito Santo, ganham grande incremento em Portugal durante os séculos XIV e XV, coincidindo o culto com o período áureo da expansão portuguesa no mundo, sendo as festas implantadas desde logo nas primeiras terras ou ilhas descobertas” (Jorge Barros e Soledade Martinho Costa, Festas e tradições portuguesas. Maio, ed. Círculo de Leitores, Lisboa, 2002, p. 188). Muito influenciadas pela espiritualidade da rainha Santa Isabel de Portugal e pelas correntes religiosas inspiradas nas ideias de renovação espiritual e fraternidade cristã, nelas, a coroação, o bodo, a distribuição de alimentos e as procissões representam a esperança de um “reino do Espírito Santo” marcado pela justiça, pela igualdade e pela abundância para todos. Em várias regiões, especialmente nos Açores, nas Beiras e nalgumas zonas do Douro, manteve-se a tradição da partilha simbólica do pão.
6 Trata-se de uma invocação mariana que remonta ao século XIII e que é muito frequente no centro de Portugal, sendo Dornes (Ferreira do Zêzere) o exemplo mais significativo.
7 O arco cruzeiro faz a separação entre a nave central e a capela-mor.