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Escândalo de gastos com ‘artistas’… nas festas

 


 



 

É um assunto de longa-data, controverso e quase insolúvel: os gastos das festas (ditas) religiosas, sobretudo se tivermos em conta o equilíbrio entre as questões ‘religiosas’ e os assuntos de âmbito mais profano, com aquelas a serem a parte mais fraca, embora sejam quem dá cobertura a tantos dos desvarios dos promotores das tais ‘festas religiosas’… mais ou menos populares.

1. Em quase todas as ‘festas’ há recolha de fundos, através de peditórios, iniciativas para conseguir levar o cabo um programa que não deixe ficar mal – por comparação com os anteriores, com os das terras vizinhas ou com um certo bairrismo ainda aceitável – a quem se envolve na promoção da ‘festa’. A capacidade imaginação inventa iniciativas, desde as mais tradicionais até às mais engenhosas, num afã que envolve pelo menos o tempo entre a anterior festa realizada e aquela que se deseja conseguir. 

Não incluo neste item as festas patrocinadas – de forma declarada ou capciosa – pelas autarquias, sejam de freguesia, sejam de câmara municipal. Os ‘peditórios’ e a angariação de publicidade fazem com que haja muito tempo gasto e muita coragem para ouvir o que nem sempre será agradável de escutar… Considero quase-sagrado esse pecúlio auferido pelos mais diversos organizadores das festas e seria um desrespeito por quem deu – sabe-se lá com que custo – gastar ao desbarato tais ‘esmolas’… 

2. Aqui entra a vertente que se encontra no título deste texto: os gastos com os ‘artistas’. Estes dependem da fase em que se encontra a sua carreira: serão mais baratos a começar e quase inacessíveis no topo da fama, real ou orquestrada. Para certas mentes rasantes a pretensa qualidade da festa mede-se pelo cartaz que apresenta, nem que isso implique gastar mais de metade dos custos globais. Conheço situações em que só o ‘artista’ de uma festa valeu tanto como as despesas totais de outras festas a poucos quilómetros…

Os meandros de tais ‘artistas’ envolvem muitas artimanhas, desde as mais básicas – como receber essencialmente em numerário – até às mais elaboradas – como esconder ao fisco, com a conivência dos promotores, as reais despesas, e com isso parecer que foi mais barato…passando, nalguns casos, em parecer ser ao vivo, quando o espetáculo é feito em playback e sem baixar os custos.

3. Com o galopar das despesas – tendo em conta os ‘artistas’ e essa nova vaga de entretenimento que são os disco-jokers barulhentos – muitas das festas irão estoirar irremediavelmente. Talvez seja a melhor forma de cair na realidade de que esticar os custos terá sempre uma solução: parar para recomeçar. Apesar do apelo ao bom senso nada há melhor do que ver as consequências, pagando os custos. De facto, a vaidade pode inchar até que seja preciso reconhecer os erros e há pessoas que só aprendem com os insucessos próprios e alheios. Efetivamente é escandaloso que se entregue de mão-beijada o esforço de tantos dias e meses de angariação de fundos para alguns minutos de exploração dos próprios ‘artistas’, que quase só servem de arranque das canções, dado que o público se encarrega de fazer o resto. Tiques de vedetas…em construção!

4. As festas ainda ‘religiosas’ (ao menos de rótulo) precisam de ser levadas a sério por parte de quem as patrocina, desde as entidades religiosas até aos participantes económicos (a publicidade é um dos suportes), sem esquecer os objetivos de festejar o santo ou a santa, bem como alguma vertente de Nossa Senhora. Olhemos para as procissões: ainda cativam a atenção de muitos ou de quase todos. Explicamos de forma apelativa e clara as imagens que nelas desfilam? Damos conteúdo cristão àquilo que chamamos religioso? Queremos que haja respeito se não nos damos ao respeito, fazendo das tais procissões quase um desfile etnográfico mal-organizado? Haverá na procissão uma ordem teológica, espiritual, histórica e conceptual?

Não podemos – como responsáveis na Igreja católica – ser parte da ‘festa’ deixando que ela se desvirtue do sentido religioso-cristão… Quem quer ser levado a sério, toma com seriedade o que lhe compete, já.



 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

1 junho 2026