Os nossos irmãos Reformadores (Calvinistas, Batistas e grande parte das ditas “’igrejas’ evangélicas” e até “neo-evangélicas”) aficam-se, frequentemente, ao pensamento mais extremo de Agostinho de Hipona (nascido em 354) para defenderem a antiguidade e a respeitabilidade de algumas das suas posições teológicas acerca da relação entre a “graça” e a “liberdade”. Nesse sentido, e para reforçarem (desnecessariamente) a importância do mencionado autor, sustentam a tese de que ele foi o primeiro pensador cristão sistemático.
Cada um é livre de dizer o que quiser, mas quando defrontados com a mentira (pois o antes aduzido não é um mero “erro”) incumbe-nos denunciá-la com toda a caridade. Neste sentido, é difícil ver em Agostinho um “autor sistemático”. Sim: ele escreveu sobre quase todos os temas da teologia cristã que eram candentes durante o tempo em que viveu (e não só), mas não de um modo sistemático, pois, inclusivamente, não tem uma obra ou um conjunto intencionalmente ordenado de obras sistematizada sobre a Teologia cristã.
O que acabei de afirmar seria suficiente para negar o presente mito, mas será que se teve que esperar muitos mais anos, décadas ou séculos para termos um autor sistemático no âmbito da Teologia da “Grande Igreja” (entretanto passada a ser conhecida como “Igreja Católica”)? Não. Basta-nos recuar duzentos anos da data da morte de Agostinho (430) para, por volta de 230, encontrarmos concluída a primeira obra sistemática de Teologia cristã: “Acerca dos Primeiros Princípios”, de Orígenes de Alexandria.
Escrita ao longo de quase 10 anos, a supracitada obra fornece aos seus leitores uma visão unificada da globalidade dos ensinamentos cristãos. E fá-lo em quatro grandes partes (ou “livros”), nas quais se apresentam os seguintes temas: na primeira, o mundo divino-espiritual; na segunda, o mundo material; na terceira, a criação, o pecado e a obra da salvação; por fim, e na derradeira parte, os fins da Criação e a correta forma de interpretação da Escritura.
Nesta obra, Orígenes descreve o que era aceite universalmente como o conjunto dos ensinamentos apostólicos, partindo, depois e numa estrutura coesa e lógica, para os “primeiros princípios” (Deus em Si mesmo). De seguida aborda, de uma maneira profundamente enraizada na vida litúrgica e eucarística da Igreja, como esses “princípios” se relacionam com o “por quê”, o “como” e o “para quê” do conjunto da Criação. Para lograr isso, o apontado autor emprega, concomitantemente, os dados da Revelação (provinda da Escritura e da Tradição) e uma sólida especulação racional.
Em Orígenes de Alexandria e no seu texto “Acerca dos Primeiros Princípios” encontramos tratados todos os temas universalmente tidos como essenciais da Teologia Cristã. É devido a isto mesmo que que a aludida obra poderá ser considerada como o primeiro grande “catecismo” cristão (para batizados já versados, minimamente, nas doutrinas da fé).
Com o referido nos três parágrafos anteriores em apreço, creio que não podem restar dúvidas acerca do facto de que o mito expresso no título deste texto é – reforço – meramente um mito. E agora, pude fazê-lo a partir de uma perspetiva afirmativa, pois a respeito de Agostinho de Hipona, restringi-me a dizer que ele não foi um teólogo sistemático (aproximação negativa).