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Por Entre Linhas e Ideias

Quantas vezes desprezamos os pequenos antes de percebermos a sua grandeza? A pergunta pode parecer cruel, sobretudo para quem, como eu, é do Sporting e ainda tenta perceber como é que uma tarde no Jamor, feita para festa, terminou com uma surpresa histórica e mais uma página do velho “sofrer à Sporting”. Já tenho resistência ao sofrimento, mas há finais que testam a serenidade filosófica de um sportinguista.

A verdade é que a irritação levou-me a desligar a televisão como se tivesse acabado de assistir a uma tragédia grega com prolongamento. Mas, passado o abalo inicial, percebi que aquela derrota se transformava numa aula de Filosofia com relvado, bancadas e cachecóis, daquelas que ninguém pede, mas que somos obrigados a aceitar e a questionar.

Ora, esta final não foi apenas uma surpresa desportiva. Foi uma parábola sobre a soberba dos grandes e a grandeza possível dos pequenos. Uma tentação antiga dos fortes é olhar de lado para quem parece inferior, como se as camisolas corressem, pensassem e resolvessem sozinhas o que o esforço ainda não resolveu. Mas a história não joga sozinha, a camisola não corre por nós e o estatuto, quando entra sem humildade, perde depressa o equilíbrio. É aqui que Zenão de Eleia nos ajuda, através da aporia de Aquiles e da tartaruga. À primeira vista, Aquiles só pode vencer e a tartaruga parece condenada, mas Zenão obriga-nos a desconfiar do evidente e lembra-nos que nada está garantido enquanto houver caminho por percorrer.

No Jamor, o grande foi Aquiles e o pequeno foi a tartaruga, mas esta tartaruga não entrou em campo para agradecer a experiência ou cumprir calendário. Entrou para competir, resistir e aproveitar cada distração, lembrando-nos que, quando o pequeno se concentra e o mais forte já imagina a festa, o impossível começa a aquecer junto à linha lateral. Também por isso, esta final obriga-nos a uma pergunta simples. Ser tecnicamente dotado chega? E a mente, que lugar ocupa no jogo? Penso que não basta ter talento, pois a técnica sem lucidez transforma-se em virtuosismo desorientado e, sem humildade, o talento dá muitas vezes o primeiro passo para a queda.

Foi William James, filósofo e psicólogo, quem escreveu, em Princípios de Psicologia, que a atenção é “tomar posse pela mente, de forma clara e viva, de um entre vários pensamentos possíveis”. Talvez esteja aqui uma lição para o futebol. Quem se distrai perde o jogo antes de perder a bola, e a concentração, tantas vezes invisível, pode valer mais do que o estatuto.

Caros leitores, há nesta história qualquer coisa de David contra Golias, porque também aí o pequeno não vence por ser maior, mas por perceber melhor o combate. Não tem força bruta, é certo, mas tem foco, coragem e inteligência, e talvez seja essa a lição mais difícil de aceitar. No futebol, como na vida, nem sempre ganha quem parece mais preparado. Muitas vezes ganha quem compreende melhor o momento.

E é aqui que a Filosofia volta ao jogo. Digo isto sendo do Sporting e com algum desconforto clubístico, mas há treinadores com cultura e visão que sabem transformar potencialidades em ato, como diria Aristóteles. Cruyff pensou o espaço como quem pensa uma ideia, Mourinho fez da estratégia uma arte de antecipação, Guardiola fez do passe uma inteligência coletiva e Farioli, licenciado em Filosofia pela Universidade de Florença, recorda-nos que uma equipa é também uma ideia em movimento. A Filosofia não marca golos, embora, se assim fosse, Platão tivesse sido ponta de lança e Sócrates, claro, capitão. Mas uma cabeça treinada para pensar o jogo como forma, ritmo e decisão vê coisas que outros não veem.

No fundo, esta final ensina-nos o que a vida repete tantas vezes. Não devemos olhar de lado para quem parece menor, porque há alunos silenciosos que surpreendem a turma inteira, ideias pequenas que mudam o mundo e equipas de escalão inferior que levantam taças diante dos grandes.

Caros leitores, independentemente da cor clubística de cada um, há uma pergunta que talvez devêssemos pensar sempre que vemos um jogo. 


 

Quantas vezes confundimos estatuto com mérito?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

27 maio 2026