Mal terminara de nascer e já tinha perdido a mãe. No início da idade adulta, viria a perder o tio, «o mais bondoso, o melhor e mais corajoso dos homens».
Entretanto, nem precisou de desfazer o luto pelo tio. Apenas um mês após a defunção deste, foi a vez de perder o seu «amado marido com quem tivera três filhos».
Para cúmulo, esta atroz ocorrência foi-lhe transmitida «quando todos os filhos estavam fora, como se a sua dor não tivesse onde encontrar alívio».
Não iria ficar por aqui a tormenta desta mulher. Parece que «as mágoas voltavam sempre com mais força para a ferir».
Pouco iria tardar até perder nada menos do que três netos. Um deles «partiu enquanto a avó o segurava e beijava».
E, como se não bastasse, foi sobressaltada com o rumor – felizmente, não confirmado – de que um dos filhos tinha partido. «Só lhe faltava mesmo lamentar os vivos».
Assim transcorreu, numa dilatada coleção de perdas, a vida de Hélvia, mãe de Séneca.
Como bom filho, o filósofo romano fez o que pôde para a consolar, «limpando-lhe as lágrimas, mesmo sabendo que não as conseguiria estancar».
Esperou, todavia, que a tristeza maternal «perdesse a força para que, amolecida pelo tempo, permitisse ser tocada e mexida».
A distância – Hélvia permanecia em Córdova (Hispânia), onde Séneca nasceu – constituía outra fonte de aflição: «Estou privada do abraço do meu amado filho».
Empiricamente, a nossa existência pode ser descrita como uma interminável coleção de perdas sobre as quais estamos prevenidos, mas para as quais nunca estaremos preparados.
É por tal motivo que «mais leve é a dor de não ter do que a dor de perder».
Acresce que a nossa aprendizagem é lenta. «Aprender a viver leva uma vida inteira e leva igualmente uma vida inteira para que aprendamos a morrer».
Regra geral, «agimos como mortais perante o que tememos e como imortais perante o que cobiçamos».
O presente «é curtíssimo; muitos nem estão cientes de quanto, a ponto de o acharem inexistente». Porquê? «Porque está sempre em movimento, a fluir sempre com pressa de chegar».
O presente está povoado de perdas que se estendem a todos os instantes, insuflados de padecimentos imperecíveis.
A convivência com a dor das ausências não é propriamente tranquila. Mas pode acabar por ser saudável.
Nenhum combatente – ponderava Hans Urs von Balthasar – se pode igualar «àquele que vence através da derrota. O adversário cai porque atacou o amor e foi vencido pelo amor». Nem a morte extingue o amor.
Afinal, nós não enterramos os mortos; os mortos é que se enterram em nós. Eles deixaram de estar ao nosso lado, saltando para dentro de nós.
Haverá o reencontro na vida plena, onde finalmente perceberemos que é morrendo que se vive para sempre. Até lá, até já!