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Quando o mais importante não é o resultado

Recentemente fui surpreendido com um convite do CLDS 5GEIRA (projeto no concelho de Terras de Bouro) para falar sobre futebol de formação. Pedi apenas que as iniciativas não coincidissem com a semana das meias-finais da Liga Europa, nem - estava confiante - com a final em Istambul. Tendo em conta o público-alvo - atletas, treinadores, dirigentes e pais - escolhi como tema: “O Futebol em Crianças e Jovens: que prioridades?”.

Assim, em Terras de Bouro e no Gerês, relembrei, também, “derbies” de outros tempos. Um Gerês x Terras de Bouro era uma espécie de SC Braga x Vitória SC, mas em GRANDE.

No desporto de formação um dos principais desafios passa por responder a diferentes expectativas e sonhos. Dos atletas, naturalmente, mas também dos treinadores, pais e dirigentes. No início de cada época todos definem objetivos. O problema surge quando esses objetivos, num mesmo clube, não coincidem e, por vezes, até são opostos. 

Nas intervenções faço sempre questão de sublinhar que estas ideias resultam apenas da minha experiência enquanto professor, pai, treinador, dirigente, prospetor, coordenador e observador atento do fenómeno desportivo em geral, e do futebol em particular. São apenas contributos para reflexão conjunta.

Afinal, qual deve ser o principal papel do desporto de formação nas idades mais jovens?

Antes de mais, fazer crianças felizes. É isso que elas procuram quando entram num clube para praticar desporto. Depois, importa também que percebam que integrar um grupo e representar uma instituição implica assumir determinados valores: respeito, cooperação, compromisso e disciplina que se adquirem juntamente com algumas aprendizagens comportamentais.

Com o passar dos anos, alguns jovens começarão naturalmente a olhar para a modalidade com ambições mais elevadas, sonhando até com uma carreira profissional. Também aí importa moderar expectativas e perceber o “funil” existente, à medida que os escalões avançam e o grau de exigência aumenta. Existem estudos em Espanha que indicam que um terço das crianças abandona a prática do futebol aos 13 anos.

Também alertei para a importância do perfil do treinador de formação. Mais do que um especialista em questões táticas, deve ser alguém com bom senso e que saiba comunicar. A sua principal missão passa pela evolução de todos os atletas, e não apenas dos que apresentem mais potencial. No final da época, a maior vitória não deve traduzir-se em títulos, mas sobretudo no facto de os jovens manterem o gosto pela modalidade e quererem continuar a praticá-la. Se a isso se juntarem mais vitórias do que derrotas, então significa que o trabalho desenvolvido também foi positivo ao nível das aprendizagens.

Aos pais tento fazê-los perceber que, muitas vezes, o seu principal papel é o de “UBER”. E mostro uma frase afixada no Campo do Bairro da Misericórdia: “Mãe e Pai, dentro do campo tenho um treinador. Por favor, não me deem instruções.”

Se cada um souber respeitar o seu papel, grande parte dos problemas do futebol de formação desaparece. Porque, no final de tudo, mais importante do que formar grandes jogadores, é nunca deixar de formar crianças felizes, apaixonadas pelo desporto e melhores adultos no futuro.

Carlos Mangas

Carlos Mangas

15 maio 2026