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Olheiros na formação

Nos últimos tempos as escolas de futebol nascem como cogumelos e espalham-se pelo país, sendo um fenómeno em crescimento, e a espionagem, que praticamente apenas tinha lugar a partir do escalão júnior chegou, imagine-se, às denominadas escolinhas, onde evoluem crianças desde os 5/6 anos. São elas, agora, os alvos de atentas observações... até nos treinos. E com direito a relatório. O objetivo é claro: detectar e sinalizar potenciais reforços para as suas equipas.
Também nesta matéria, como em tantas outras, impera sempre a lei do mais forte - ou seja, nesta guerra o clube mais conceituado estará sempre em vantagem..., situação que cria enormes desequilíbrios nas competições destes escalões, acabando por fazer igualmente mossa nos cofres dos clubes que, mais pequenos, perdem prematuramente os seus atletas mais talentosos, aqueles que, no futuro, e a serem contratados, permitiriam um importante encaixe financeiro, muitas vezes essencial para a subsistência do próprio clube. A lei, de resto, acaba por proteger os mais fortes, uma vez que só há direito a uma taxa de compensação quando o jogador tem 14 ou mais anos. Até lá, e se for esse o caso, o jovem sai a custo zero. E nem sequer os pais desses jovens protegem o clube e até mesmo o filho. Deslumbrados, sonham que os seus filhos podem vir a ser o Figo, Cristiano Ronaldo, Messi ou outros, inscrevendo-os nas escolinhas de Futebol, que grassam por esse país fora, despendendo elevadas mensalidades, na expectativa de um dia eles poderem chegar ao patamar mais alto do futebol, mesmo que isso custe, mais tarde, um apagão. E são já conhecidos muitos casos de jovens que abandonando precocemente o seu habitat, ingressando em clubes da capital e que rapidamente acabam o seu sonho porque ainda não possuem idade, maturidade e estabilidade para aos 13/14 anos, viverem longe da família, sem o apoio indispensável que um jovem destas idades requer, por muito talento que possua. Seria bom que os responsáveis desses clubes estivessem atentos a essas situações, para que na realidade não se desperdicem talentos em fase de formação. Existem etapas que não se podem queimar, precocemente, sob pena de vermos ruir o nosso próprio desejo. Mas a expectativa de um lucro imediato (escolas de futebol) e a perspectiva de um dia poderem vir a ganhar milhões de euros, como acontece com os jogadores das grandes seleções europeias e mundiais. Que dizer a tudo isto? Talvez fosse melhor os clubes, ou outras entidades que estão na linha da frente na criação das escolas de futebol se preocupassem com a formação integral dos jovens (atleta/cidadão), criassem condições favoráveis para o crescimento sustentado destes jovens praticantes, valorizando o divertimento no processo de aprendizagem desportiva, como a construção da auto-estima na criança/atleta, dando relevo aos aspectos sociais (divertimento), físicos (esforço) e técnicos (desenvolvimento) da aprendizagem, e não tanto aos resultados (vitória) finais; reforço dos valores (responsabilidade, disciplina, cooperação, honestidade e frontalidade) e valorização dos princípios do fair-play (respeito pelos companheiros, adversários, treinadores, regras de jogo e árbitros). Muitas outras coisas se poderiam acrescentar mas comece-se por aqui e acabem-se com os olheiros nestas etapas de formação!
 

Luís Covas

Luís Covas

15 maio 2026