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Família e saúde: o papel do cuidador informal

Quando a doença entra em casa, raramente entra sozinha. Chega acompanhada de mudanças, dúvidas e adaptações que alteram a vida de toda a família. E, muitas vezes sem preparação prévia, alguém assume um novo papel: o de cuidador informal. 

O cuidador informal é a pessoa — frequentemente um marido, uma esposa, um filho, uma filha ou outro familiar próximo — que assume a responsabilidade de cuidar e apoiar alguém em situação de dependência, fragilidade ou doença. Passa a acompanhar as consultas, gerir a medicação, apoiar na higiene, ajudar na alimentação, vigiar os sintomas e reorganizar as rotinas. O que começa por ser um gesto natural de proximidade transforma-se, por vezes, numa responsabilidade exigente e contínua. Muitas pessoas desempenham este papel diariamente sem sequer se identificarem como cuidadoras. 

Numa sociedade cada vez mais envelhecida e marcada pelo aumento das doenças crónicas e das situações de dependência, os cuidadores informais assumem hoje um papel essencial. São, muitas vezes, o suporte invisível que permite que muitas pessoas permaneçam em casa, junto da sua família e do seu contexto de vida. 

Mas importa fazer uma pergunta simples: quem cuida do cuidador? 

Durante muitos anos, esperou-se que as famílias soubessem cuidar de forma intuitiva. Contudo, cuidar exige aprendizagem. Ninguém nasce preparado para ajudar a mobilizar uma pessoa dependente, prevenir quedas, reconhecer sinais de alerta ou lidar com o desgaste físico e emocional associado ao cuidar. 

Capacitar quem cuida deixou de ser apenas desejável; tornou-se uma necessidade. Quando o cuidador recebe informação, orientação e apoio, ganha segurança, reduz a ansiedade e promove uma melhor qualidade de vida para a pessoa cuidada e para a própria família. 

Na ULS de Braga, tem-se reforçado a preocupação em preparar quem cuida. Durante o internamento procura-se identificar precocemente a pessoa que assumirá o papel de cuidador, envolvendo-a e capacitando-a para a continuidade dos cuidados após a alta. O projeto “Cuidar em Parceria” permite precisamente essa participação ativa, criando oportunidades de aprender, desenvolver competências e ganhar confiança para cuidar em casa. 

Mas a resposta ao cuidador não se constrói apenas nos hospitais. Em Braga, existem diferentes recursos e iniciativas que visam apoiar e valorizar quem cuida. Entre eles, destaco a ACFAB – Associação de Cuidadores Familiares e Amigos de Braga, dedicada à criação de redes de apoio, sensibilização e articulação comunitária, aproximando cuidadores, famílias e parceiros da comunidade, para que ninguém enfrente sozinho os desafios do cuidar. 

Talvez o desafio dos próximos anos não passe por criar respostas a cada necessidade. Nem sempre é preciso que cada instituição desenvolva o seu próprio projeto. Muitas vezes, o mais importante é unir esforços, fortalecer o que já existe e trabalhar em conjunto. Quando juntamos pessoas, conhecimento e recursos, criamos respostas mais fortes e mais próximas de quem cuida. 

Precisamos de construir pontes, e não barreiras, entre hospitais, cuidados de saúde primários, associações e a comunidade. Porque cuidar não deve ser um caminho solitário. 

Uma comunidade verdadeiramente saudável não se mede apenas pela forma como cuida dos seus doentes. Mede-se também pela forma como reconhece, apoia e capacita aqueles que, todos os dias, cuidam de alguém que amam. 

Ivo Ribeiro

Ivo Ribeiro

15 maio 2026