twitter

Quando a tribo habita o algoritmo

Chamamos-lhe segurança, inovação, inteligência e prevenção, revestindo de promessa aquilo que nem sempre interrogamos criticamente. E, no entanto, talvez o traço mais inquietante do nosso tempo seja este: nunca tivemos tantos dispositivos destinados a proteger-nos e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos a formas subtis de subjugação. O hipercontrolo contemporâneo não é apenas um efeito da sofisticação tecnológica. É, mais profundamente, o resultado de uma fusão entre a frieza do cálculo algorítmico e uma pulsão muito mais antiga, quase tribal, que continua a dividir o mundo entre os que pertencem e os que devem ser mantidos à distância.
Engana-se quem pensa que a tecnologia, por si só, explica a nova paisagem política. O algoritmo não nasce num vazio ético. Inscreve-se em sociedades atravessadas pelo medo, pelo ressentimento, pelo desencanto democrático e pela ansiedade identitária. Por isso, o que hoje se consolida não é uma mera ordem digital: é uma racionalidade de governo que utiliza a técnica para tornar mais eficiente aquilo que, no fundo, vem de muito longe. A máquina não elimina o velho instinto de exclusão. Torna-o mais limpo, mais veloz, mais silencioso e, por isso mesmo, mais difícil de contestar.
O hipercontrolo atual vive desta aliança. De um lado, encontramos a ambição de tudo medir, prever e corrigir: dados, perfis, padrões de comportamento, índices de risco, vigilância difusa e decisão automatizada. Do outro, regressa a gramática arcaica da tribo: a obsessão da origem, a imaginação da pureza, a suspeita perante o estranho, a tentação de reconstruir a comunidade como recinto protegido contra uma ameaça permanente. O resultado é um poder que calcula com frieza, mas seleciona com paixão. O algoritmo gere, o medo decide.
É por isso que a desumanização contemporânea já não precisa de falar alto. Pode apresentar-se com a serenidade da administração, com a polidez da interface e com a promessa de eficiência. Já não necessita de proclamações brutais para hierarquizar vidas. Basta-lhe classificar, ordenar, filtrar e sinalizar. Basta-lhe transformar diferenças humanas em variáveis operacionais e tratá-las como verdades objetivas. O que antes surgia como ideologia aparece agora como procedimento. O que antes se exprimia em slogans surge hoje em protocolos.
Mas não nos iludamos: por detrás da aparência neutra do sistema continua a agir uma antropologia da suspeita. O que está em causa não é apenas saber mais sobre cada pessoa, mas decidir antecipadamente quem inspira confiança, quem pode circular, quem deve ser travado, quem conta plenamente como membro da comunidade e quem permanece numa periferia funcional. A cidadania começa, assim, a depender de filtros invisíveis. E a democracia, sem alarde, vai sendo corroída a partir de dentro.
A gravidade deste processo está também na forma como ele se normaliza. Aceita-se uma câmara a mais, um cruzamento de dados a mais e um mecanismo preditivo a mais. Tudo parece razoável, pontual e necessário. Mas a soma dessas pequenas cedências produz uma mutação de fundo: a liberdade deixa de ser ponto de partida e torna-se uma concessão condicionada. Já não se governa apenas com leis e instituições, mas também com arquitetura digital, gestão emocional e mobilização do medo.
Talvez seja esta a figura mais perigosa do presente: uma barbárie sem aparência bárbara. Não avança de punho erguido, mas com painel de controlo; não se anuncia como tirania, mas como otimização; não se legitima apenas por discursos inflamados, mas por tabelas, probabilidades e automatismos. Quando o frio do algoritmo se une ao calor primitivo da tribo, nasce uma forma de poder insidiosa e devastadora: moderna nos instrumentos, arcaica no impulso e cruel nos efeitos. Resistir-lhe exige mais do que regulação técnica. Exige recuperar a ideia de que a dignidade humana não pode ser convertida em dado, nem a comunidade em fortaleza, nem a diferença em ameaça.

 

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

3 maio 2026