“É provável que coisas improváveis aconteçam”, recorda o professor A. Betâmio de Almeida num texto de opinião sobre Inteligência Artificial, publicado no jornal Público, retomando Aristóteles, para enquadrar um tempo em que a fronteira entre o possível e o impossível se torna cada vez mais difusa. Esta ideia justifica a reflexão que hoje se impõe: perante a aceleração tecnológica, não basta acompanhar o que é possível fazer, importa decidir o que faz sentido permitir, valorizar e preservar. A história mostra-nos que o avanço científico e técnico tem sido motor de desenvolvimento económico e melhoria das condições de vida e a Inteligência Artificial surge como mais um desses saltos, com potencial para responder a desafios complexos, da sustentabilidade ambiental à organização das sociedades, como demonstra a criação da plataforma europeia que promove a partilha de dados, ferramentas e capacidade computacional entre investigadores, empresas e instituições públicas, facilitando a inovação e a experimentação. Neste plano, a IA é não só desejável, como necessária, funcionando como instrumento de progresso, competitividade e até coesão, ao permitir respostas mais eficazes a problemas globais. Contudo, em paralelo, começam a surgir mecanismos de regulação indireta que revelam preocupações éticas, culturais e sociais, como a decisão da indústria cinematográfica (Hollywood) de não tornar elegíveis para prémios obras que recorram a atores ou guiões gerados por IA, o que, não proibindo o seu uso, condiciona claramente as escolhas de criadores que ambicionam reconhecimento e prestígio, introduzindo assim um limite simbólico sobre o que deve continuar a ser expressão humana e valorizado como tal. Esta tensão entre expansão e contenção traduz uma questão mais profunda e inevitável: se a IA pode fazer cada vez mais, com maior eficiência e menor custo, o que queremos nós continuar a fazer enquanto humanos, não por incapacidade técnica, mas por escolha consciente? A resposta torna-se ainda mais complexa com o desenvolvimento de avatares e assistentes digitais concebidos para apoiar tarefas repetitivas, mas que rapidamente se estendem ao domínio das interações pessoais, oferecendo companhia, apoio, mediação social e até simulação de empatia, o que levanta dúvidas sérias sobre a autenticidade das relações e o risco de substituição de vínculos humanos por interações artificiais programadas. Se, por um lado, estes sistemas podem aumentar a eficiência, reduzir o esforço e libertar tempo para outras atividades, por outro podem alterar profundamente a forma como nos relacionamos, reduzindo a necessidade de contacto humano direto, criando zonas de conforto artificiais e reconfigurando a própria ideia de comunidade, proximidade e pertença. Neste contexto, a ética não pode ser secundária nem reativa: definir limites ao uso e à autonomia da IA é uma forma de garantir que o progresso tecnológico não se sobrepõe aos valores humanos fundamentais, exigindo decisões conscientes, informadas e participadas sobre onde a substituição é aceitável e onde deve ser travada, bem como assegurando que o controlo permanece nas mãos da sociedade, das instituições democráticas e dos cidadãos, e não apenas de interesses económicos, lógicas de mercado ou dinâmicas de poder tecnológico. O futuro da relação entre humanos e Inteligência Artificial dependerá, assim, menos da capacidade das máquinas, que continuará inevitavelmente a crescer, e mais da nossa vontade coletiva de definir prioridades, estabelecer limites e preservar o que consideramos essencial, sendo fundamental afirmar que, mesmo num mundo onde o impossível se torna possível, a última decisão, o último critério e a última responsabilidade devem continuar a ser humanos.
IA: entre o progresso necessário e os limites humanos
Paulo Sousa
3 maio 2026