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Alegria – Sinal de Páscoa

Não é difícil descortinar o sentimento que invadiu os discípulos de Cristo no encontro com o Ressuscitado. Maria de Magdala e a outra Maria correm “cheias de grande alegria” para o anunciar aos Apóstolos (Mt 28, 8). Os discípulos de Emaús interrogam-se: “Não nos ardia o coração quando Ele nos falava pelo caminho?”Não era de esperar outra coisa. O Amigo que tinha estado morto está agora de novo vivo e, com eles, volta a partilhar momentos concretos que solidificam a antiga amizade. Foi-se o medo e a vida readquiriu significado.
A Ressurreição de Jesus é um acontecimento passado, mas deve tornar-se quotidiano. Com Ele presente na vida das pessoas e das comunidades, a alegria deve transparecer como algo natural ou até como um verdadeiro imperativo.
Os tempos hodiernos mergulham-nos na tristeza. São múltiplas as razões. Ela impera em todos os ambientes, na comunidade internacional, mas sobretudo no coração das pessoas. Vive-se acabrunhado e sem grande entusiasmo. Parece que a vida apenas sorri a alguns. As conversas manifestam estes sentimentos interiores, e os espaços existenciais tornam-se verdadeiramente tóxicos. Serei pessimista? Basta confrontarmo-nos com o dia a dia.
Daí que a verdadeira celebração da Páscoa tenha de conduzir os cristãos a mostrar, pelo sinal da alegria, que Cristo está vivo. Quando os Apóstolos e alguns discípulos decidem regressar ao esquema de vida que tinham antes do encontro com Cristo, depois de uma noite sem pesca, Jesus aparece pela terceira vez, e João reconhece-O, dizendo: “É o Senhor” (Jo 21, 7). Como nesse momento, a Igreja terá de reconhecer que a sua missão passa essencialmente por este anúncio de um Cristo que se encontra em todos os momentos, alegres ou tristes. É sempre Ele. A fragilidade humana é algo muito complexo. A sociedade precisa de alegria. A Igreja tem a responsabilidade de a oferecer, não como uma nova ideologia, mas mostrando-a no coração e nos rostos.
Estou a ler um livro da autoria de um sacerdote bracarense a viver em Roma: A estrela e o espelho. Compreender hoje os pecados capitais. O autor parte da experiência de um Padre do Deserto, Evágrio Pôntico (345-399), que foi o primeiro a sistematizar os “pensamentos malignos” que, mais tarde, foram considerados, no Catecismo da Igreja, como pecados capitais. Enumera oito. Mais tarde, Gregório Magno (+604), Papa e Doutor da Igreja, retira a tristeza como pecado isolado, mas reconhece que ela vai permeando todos os outros.
Não resisto a fazer uma citação. É longa, mas convido os leitores a fixarem-se em cada uma das expressões. Cada um saberá intuir os seus verdadeiros conteúdos:
“A tristeza é um hóspede nocivo, um confidente funesto, um presságio de desenraizamento, uma saudade da família, companheira da angústia, parente próxima da acédia, um lamento exasperante, memória das ofensas, obscurecimento da alma, humilhação moral, embriaguez disfarçada, sedativo hipnótico, obscurecimento das formas, um verme da carne, aflição dos pensamentos, prisão de um povo.” (De vitiis quae opposita sunt virtutibus, 4).
Não quero comentar, por agora, cada uma destas afirmações. Basta sublinhar que o referido Padre não se esquece de contrapor, como experiência pessoal, mas também como caminho para os seus companheiros, a virtude oposta, que é a alegria.
Nesta proposta de trazer a alegria para o quotidiano, não resisto também a citar:
“A alegria é a destruição da tristeza e ação de graças nas adversidades; é uma visão que nasce da oração e júbilo no esforço ascético; é contentamento ao praticar a caridade, raiz da renúncia, lugar de acolhimento, refúgio da esperança, alimento dos ascetas, encorajamento para os tristes, consolação nas lágrimas, auxílio na aflição, sustento da caridade, companheira da perseverança.” (n.º 4).
Também o Papa Francisco quis refletir sobre os vícios e as virtudes nas suas catequeses semanais, de janeiro a maio de 2024 (Catequese sobre os Vícios e as Virtudes, SNL, 2024):
“Devemos prestar atenção a esta tristeza (do mundo) e pensar que Jesus nos traz a alegria da ressurreição. Por mais que a vida possa ser cheia de contradições, de desejos derrotados, de sonhos não realizados, de amizades perdidas, graças à ressurreição de Jesus podemos acreditar que tudo será salvo. Jesus não ressuscitou só para si mesmo, mas também para nós, a fim de resgatar toda a felicidade que na nossa vida ficou incompleta. A fé expulsa o medo, a ressurreição de Cristo remove a tristeza como a pedra do sepulcro” (p. 31).
A liturgia do Próprio Bracarense tinha uma festa na segunda-feira de Pascoela: Nossa Senhora dos Prazeres, ou Nossa Senhora da Alegria. Este segundo título encanta-me.
Testemunhemos a alegria pascal.


*Arcebispo Emérito
 

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

3 maio 2026