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A decisão de Zaqueu

1. Zaqueu era um homem rico, mas cuja riqueza nem sempre foi bem adquirida. Exercia a profissão de chefe de publicanos em Jericó (Lucas 19, 1-10).

Na Bíblia, os publicanos eram cobradores de impostos ou tributos que atuavam em nome do Império Romano, responsáveis por arrecadar impostos sobre a terra, comércio, mercadorias e até impostos pessoais, conhecidos como capitação.

Muitos deles eram judeus, mas a função de arrecadar tributos para um poder estrangeiro tornava-os altamente desprezados e vistos como traidores pelos seus compatriotas. Além disso, não se livravam da fama de, em proveito próprio, cobrarem valores acima do exigido por Roma. Eram considerados pecadores públicos e evitados pelos fariseus e outros líderes religiosos.

 

2. Foi um homem destes que, levado pela fama de Jesus, o quis ver. E foi também a um homem destes que Jesus se deu a conhecer fazendo-se convidado para almoçar em sua casa.

Para ver Jesus, Zaqueu, de pequena estatura, não teve receio de enfrentar as críticas da população, empoleirando-se em cima de uma árvore, um sicómoro. E Jesus, que veio lançar pontes e derrubar muros, não teve o mínimo escrúpulo em almoçar com um publicano.

Lembro que o publicano Levi veio a ser o evangelista Mateus (Mateus 9, 9-13). E na parábola da oração do fariseu e do publicano quem fica mal na fotografia é o fariseu, com toda a sua arrogância (Lucas 18, 9-14).

 

3. A presença de Jesus em sua casa fez Zaqueu refletir. Tomou a decisão de indemnizar quem tinha prejudicado e de repartir parte da fortuna pelos pobres.

No texto do Evangelho fala-se em repartir e em indemnizar. Sem pretender corrigir o texto sagrado, penso que, em circunstâncias destas, a ordem das palavras deve ser outra: indemnizar e repartir. Para que se não reparta o que não é nosso. Para que se não faça «caridade» com o que é dos outros.

 

4. A ninguém é lícito possuir o que não lhe pertence. A prática da justiça exige que se dê a cada um o que é seu. Res clamat domino (a coisa grita pelo dono), aprendi, há mais de sessenta anos, nas aulas de Moral. Quem prejudica tem o dever de indemnizar o prejudicado. Quem rouba ou furta, tem o dever de restituir o produto do furto ou do roubo.

 

5. Não é legítimo dar por caridade o que é devido por justiça. Primeiro que se restitua. Depois, repartir o que fica. Dar por esmola o que é produto de injustiças é pretender fazer caridade com o que é dos outros.

Como se vai fazer caridade com o produto de salários mal pagos, com o produto de negócios desonestos, com o produto de vigarices de qualquer espécie?

Antes da prática da caridade que se observem as exigências da justiça.

 

6. Muito atual a decisão de Zaqueu. O dinheiro deve ser devidamente valorizado, honestamente adquirido, criteriosamente usado. É meio e não fim. Não deve resultar de atividades injustas ou eticamente reprováveis. Deve ser usado de forma solidária e não egoísta; tendo em vista a sua função social.

Porque nem sempre se atende a algum destes três aspetos acontece de haver ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. Pessoas com pensões milionárias a par de reformados com vencimentos pouco mais que miseráveis. Salários que não acompanham a subida do custo de vida.

Porque há pessoas ambiciosas invade-se a propriedade alheia sem respeito pelas normas do Direito. Promovem-se guerras que semeiam destruições e mortes com o indisfarçável propósito de gerir a riqueza alheia.

Porque há pessoas cuja preocupação é ter e ter cada vez mais não se enfrenta de forma solidária o problema da habitação fugindo de promover a construção de casas de rendas acessíveis onde os casais jovens possam ter filhos. Não se investe em lares de idosos para utentes de modestas pensões de reforma.

Uma sociedade verdadeiramente humana exige se ponha cobro a ganâncias desenfreadas e se coloque o dinheiro no lugar que lhe compete numa correta escala de valores.

Silva Araújo

Silva Araújo

30 abril 2026