1. A cada passo se proclama a igualdade fundamental de todos os cidadãos. E não se julgue que tal proclamação teve origem na Revolução Francesa. De forma alguma. A liberdade, a igualdade e a fraternidade são princípios cristãos. Foi Jesus quem nos ensinou a chamar a Deus, Pai de todos. Foi para nos libertar que Deus encarnou em Jesus Cristo, fazendo-se um de nós. Ao falar da igualdade de todos perante a lei, as constituições políticas, por mais laicas que se declarem, estão a proclamar um princípio cristão.
Uma coisa, porém, são os princípios, e outra, a sua concretização na vida de todos os dias. E a tal igualdade que se proclama nem sempre é respeitada por muitos que a apregoam.
2. É verdade que todos somos iguais – todos possuímos a mesma dignidade de seres humanos e de filhos de Deus – mas também é verdade que somos diferentes. Por mais igualdade que se proclame, por exemplo, cada um tem a sua carteira, que é diferente da dos outros, e que a uns impõe restrições enquanto a outros permite larguezas, por vezes exageradas e escandalosas. Todos somos iguais, mas quem for branco é branco e quem for de cor é de cor.
3. Há diferenças que é necessário aceitar e imperioso respeitar. Mas também há diferenças que não deveriam existir, porque soam a discriminação, soam a falta de respeito pela dignidade do outro.
O facto de sermos diferentes não justifica que as pessoas sejam instrumentalizadas, coisificadas, comercializadas, tratadas como guardanapos de papel.
O facto de todos sermos diferentes não pode ser motivo para justificar que a alguns seja atribuído um estatuto de privilégio ou para que o que deve ser de todos como que seja apenas propriedade de alguns.
4. Há discriminações que de forma alguma se justificam, porque constituem verdadeiras injustiças. E há-as. Provocadas, nuns casos, por razões de ordem política. Quem é da cor dos homens do poder tem, muitas vezes, um tratamento diferente, o que não está certo. Há discriminações provocadas pelo egoísmo das pessoas, por razões ideológicas ou clubísticas, por motivos religiosos, por questões de parentesco ou de afetividade. É o compadrio e o nepotismo. Até na Igreja, por vezes, surgem tais discriminações, agindo-se como se uns fossem mais iguais que outros.
5. Um dos males da nossa sociedade – que não é de agora, mas nem por isso deixa de ser um mal a eliminar – consiste em dividir os homens em dois grupos: os nossos e os outros. Os nossos são os bons, enquanto os outros não passam de uns tolerados. Aos nossos nada pode faltar, e os outros, que se contentem com as migalhas. Aos nossos tudo se tolera e justifica, enquanto com os outros se é cruamente exigente e intransigente. Para os nossos são os lugares melhor remunerados, ou considerados de maior prestígio – quando se não inventam, à sua medida – porque só os nossos é que têm valor e capacidade; os outros, não passam de uns pobres diabos. Enquanto para os outros há desemprego, para os nossos permite-se, ou cria-se, o pluriemprego. Os nossos são atendidos de imediato, mesmo sem audiência previamente marcada; os outros, serão atendidos quando, onde e como der jeito. Aos nossos tudo se facilita, enquanto para os outros tudo são dificuldades, e entraves, e burocracias, e vírgulas a mais ou a menos. Aos nossos não podem faltar subsídios, apoios, bons tachos; para os outros, irá o que sobejar. Aos nossos distribuem-se generosas benesses; aos outros, dá-se-lhes aquilo a que se é obrigado, e nada mais. Para os nossos criam-se todas as condições, a fim de que, onde quer que estejam, possam fazer figura; os outros, que se desenrasquem.
6. É injusta uma sociedade onde há senhores e escravos, filhos e enteados, homens e infra-homens. Mas não me digam que tal sociedade não existe.
É tudo uma questão de cor, de grupo, de clube, de movimento, de partido, mas não deixa de produzir injustiças e faltas de respeito.
Se continua a ser verdade que todos somos diferentes, não deixa de ser verdade a existência de diferenças que são intoleráveis, que já ontem não deveriam existir, que se devem unicamente à teimosa prepotência de certos homens.