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Os Sínodos permaneceram realidades locais até I Niceia (325)

 



 

Depois de um breve interregno, regresso a esta rubrica relacionada com os mitos que orbitam o Cristianismo Antigo. Deixando para trás o já abordado segundo século da era cristã, passarei a dar atenção a questões relacionadas com o séc. III, com as quais vamos encontrar amiúde a “sombra” de um grande “bode expiatório”: o Imperador Constantino I. 

Na verdade, este Imperador tornou-se num “íman” de atração para quase tudo o que ocorreu no Cristianismo Antigo e, inerentemente, na Igreja. Um primeiro exemplo disto é o mito que abordo neste texto (e que surgiu para se tentar mostrar, absurdamente, que a Igreja esteve organizativa e juridicamente separada até ao Concílio I de Niceia de 325). A saber: aos sínodos que se iam realizando em distintos locais só acorriam pessoas desses lugares, até que tal Concílio foi convocado (justamente por Constantino I), e ao qual, supostamente pela primeira vez, acorreram participantes de diversas proveniências geográficas para além da de Niceia.

Não é necessário um vasto conhecimento do séc. III (e do seguinte) para se provar que tal mito não é, mais uma vez, nada mais do que um mito. De facto, sabemos que, nos anos de 235 e 236, Orígenes de Alexandria participou, na qualidade de perito teológico convidado e quando já estava exilado em Cesareia Marítima (situada na Província Romana da Síria-Palestina – nome dado, no segundo quartel do séc. II, à antiga Judeia), em dois sínodos realizados em Bostra (local no Noroeste da Província Romana da Arábia Petreia – hoje no Sudoeste da Síria), para deliberarem sobre a ortodoxia trinitária do bispo desse lugar: Berilo.

Mais ainda: o mesmo Orígenes teve o ensejo de participar, algures entre os anos de 244 a 249, numa outra assembleia sinodal na sobredita Arábia Petreia (talvez novamente em Bostra), convocada para ponderar acerca das teses trinitárias e antropológicas do bispo Heráclides.

Pois bem, nessas duas ocorrências a ortodoxia foi reafirmada, com Berilo e Heráclides a regressarem à doutrina ortodoxa defendida por Orígenes; mas poder-se-á dizer com toda a justiça: “a presença de uma ‘andorinha’, e vinda ‘de perto’, não é prova de uma ‘Primavera’ dos sínodos inter-regionais”. É verdade: Orígenes não foi para muito longe para participar nessas assembleias e terá sido, quase certamente, um caso virtualmente único e isolado.

Para a realização de um tal sínodo inter-regional, temos que aguardar pelo ano de 264, em que, na cidade de Antioquia da Síria, se debateu, em diversas sessões, a precisão teológica trinitária do então bispo desse importante centro episcopal: Paulo de Samósata. Nestes eventos participaram cerca de 75 bispos, muitos deles de outras zonas do Império Romano (Arábia, Capadócia, Cilícia, Egito, Lacónia, Síria e Ponto), que condenaram Paulo de Samósata.

Note-se, ainda que de passagem, que esse bispo de Antioquia recusou abandonar a, até então, sua casa episcopal, pedindo, em seu favor, a intervenção do Imperador Romano Aureliano (no que então foi um precedente capital na tentativa de se resolverem disputas intraeclesiais mediante o recurso ao poder imperial). Ora, tal Imperador disse que quem tinha o direito de decidir acerca da posse do dito imóvel era o Bispo de Roma em união com os demais bispos da Itália (vê-se bem que temos aqui um reconhecimento implícito, seja do direito da Igreja à sua organização interna, seja da primazia episcopal de Roma, quiçá por ser a capital imperial).



 

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

19 abril 2026