Há uma expressão que se tornou quase automática no léxico eclesial: “crise de vocações”. Repete-se, multiplica diagnósticos, convoca preocupações e justifica planos. Mas, muitas vezes, diz menos do que parece. Porque, ao identificar quase toda a questão vocacional com a falta de padres e de religiosos, acaba por reduzir a crise ao problema dos quadros disponíveis para manter a máquina pastoral em funcionamento. Ora, o problema é mais fundo. E é precisamente por isso que é mais sério.
A escassez de clero não deve ser negada. Ela é real, visível e, em muitas regiões, pastoralmente pesada. Mas tomá-la como núcleo da crise é confundir o sintoma com a doença. Antes de faltarem sacerdotes, já faltava outra coisa: a consciência de que a vida cristã inteira é vocação; de que o batismo não é um rito de entrada social na Igreja, mas a forma basilar de viver alicerçado em Cristo, na comunidade e para a missão. Quando esta consciência enfraquece, não faltam apenas padres. Faltam cristãos.
Faltam matrimónios vividos como vocação e não apenas como escolha privada com moldura religiosa. Faltam leigos disponíveis para assumir, com estabilidade, ministérios, serviços e responsabilidades eclesiais. Faltam comunidades capazes de gerar pertença duradoura, transmissão da fé e corresponsabilidade. Faltam, em suma, sujeitos cristãos. E quando estes rareiam, torna-se inevitável que escasseiem também aqueles que possam assumir funções e ministérios.
Durante demasiado tempo, em muitos contextos, habituámo-nos a uma espécie de cristianismo por delegação. A comunidade delega no padre a presidência, a iniciativa, a palavra, a condução e, por vezes, até o dever de acreditar por todos. Os restantes tornam-se utilizadores de serviços religiosos: procuram sacramentos, frequentam momentos altos do calendário e consideram normal que a missão seja coisa de especialistas. Neste modelo, o batismo é substancialmente esvaziado.
Talvez por isso a insistência em “resolver” a crise apenas com campanhas vocacionais, reorganizações administrativas ou redistribuição da escassez acabe por soar a gestão de danos. Pode ser necessária, mas não basta. Multiplicar unidades pastorais, fundir paróquias ou pedir ao mesmo sacerdote que faça mais quilómetros e celebre mais vezes não recria, por si só, o tecido eclesial. Apenas administra a falta. E administrar a falta não é o mesmo que gerar futuro.
Há, além disso, uma questão que a Igreja terá de enfrentar com mais honestidade: a possível inadequação de algumas das suas formas herdadas de organização territorial e ministerial. A diminuição do clero não é só um problema de recrutamento, pode ser também um sinal. Um sinal de que certos modelos já não correspondem à mobilidade social, à fragmentação dos ritmos de vida e à quebra da transmissão intergeracional. Insistir em conservar tudo, apenas com menos gente, talvez seja uma forma piedosa de não ver a mudança.
É verdade que esta dificuldade de pertença estável não é exclusiva do catolicismo. Outras Igrejas, outras tradições religiosas e até o mundo associativo civil conhecem problemas semelhantes de transmissão, compromisso e continuidade. Mas essa analogia não desculpa a Igreja. Pelo contrário, torna mais clara a sua tarefa: voltar a gerar pessoas que compreendam a vida como resposta a um chamamento.
Talvez, então, devêssemos falar menos de crise de vocações e mais de crise da apropriação cristã. Porque o problema central não é apenas a falta de candidatos ao presbiterado. É a rarefação de contextos onde alguém aprende a dizer: a minha vida é chamamento, dom, missão e pertença. Sem isso, a Igreja terá menos padres. Mas, antes disso, será menos Povo de Deus. E uma Igreja com menos batizados conscientes, corresponsáveis e missionários não sofre apenas de escassez de clero. Sofre de anemia espiritual.