Ainda que em tempos de guerra, em Portugal não há tanques nas ruas nem sirenes de ataque aéreo. Mas, ainda assim, todos os anos, morrem centenas de pessoas numa guerra silenciosa que se trava todos os dias, quilómetro após quilómetro, nas nossas estradas.
Uma guerra que não aparece nos noticiários internacionais e que a Operação Páscoa de 2026 voltou a expor de forma crua. Não se trata de acidentes isolados, mas de uma espécie de guerra civil não declarada: portugueses contra portugueses, vítimas da pressa, do álcool, do erro humano e, muitas vezes, de uma indiferença que já não nos envergonha.
Em poucos dias de fiscalização intensiva, PSP e GNR registaram 18 mortos em mais de dois mil acidentes. Um número que, se fosse provocado por qualquer outro tipo de violência coletiva, paralisaria o país de choque. Nas estradas, porém, tende a ser rapidamente esquecido. Ignorar estes dados é, no fundo, normalizar a tragédia.
Um retrato que insistimos em não encarar. Os números da Páscoa de 2026 falam por si: mais de 2.000 acidentes, 42 feridos graves e 668 feridos ligeiros. Só a GNR registou 12 mortes em 584 acidentes; a PSP contabilizou mais de 1.400 acidentes e seis vítimas mortais.
E as causas? São sempre as mesmas, repetidas até à exaustão: excesso de velocidade, álcool, distração ao volante, muitas vezes com o telemóvel, fadiga e excesso de confiança. Foram detidos 199 condutores por condução sob efeito do álcool e levantadas milhares de contraordenações. Não por desconhecimento das regras, mas por escolhas conscientes que todos sabemos poderem ser fatais - e que continuamos a fazer.
Quando olhamos para o contexto europeu, o desconforto aumenta. Portugal continua acima da média da União Europeia em mortalidade rodoviária: 61 mortos por milhão de habitantes, contra cerca de 44 na UE. Não somos, inevitavelmente, piores condutores. Fazemos, isso sim, escolhas piores. E repetimo-las, ano após ano.
O problema é de todos, mas a responsabilidade dilui‑se. As campanhas de prevenção surgem de forma previsível, quase ritualista. Intensificam-se nas épocas festivas, desaparecem logo depois. A fiscalização acompanha o calendário, não o problema. E quando o calendário muda, a urgência evapora.
Persistem estradas mal sinalizadas, pontos negros há muito identificados e uma cultura informal de impunidade, onde “nunca aconteceu nada” serve de desculpa até ao dia em que acontece.
A responsabilidade é partilhada, e é precisamente aí que falhamos. Condutores que arriscam mais do que deviam. Autarquias que adiam correções óbvias nas infraestruturas. Um Estado que reage mais do que previne. Forças de segurança que, muitas vezes, se limitam a gerir consequências que poderiam ter sido evitadas.
Cada estatística esconde uma história interrompida, vidas irreversivelmente quebradas. Na Páscoa de 2026, uma colisão matou quatro membros da mesma família. Durante dias, o país parou para ouvir essa história como se fosse excecional. Não é. É apenas a mais recente de uma longa série que preferimos não contar.
A sinistralidade rodoviária tem também um custo económico pesado: milhões de euros todos os anos em cuidados de saúde, absentismo laboral e perda de produtividade. Mas nenhum número traduz o impacto real de uma cadeira vazia à mesa, de uma vida que não volta. Esses custos não têm linha no orçamento.
Punir é necessário. Mas não chega.
Sem investimento sério e contínuo em educação rodoviária, desde a escola, passando pelas empresas e pela comunicação social, continuaremos a tratar os sintomas, não a causa. Campanhas pontuais geram medo temporário da multa; não criam consciência duradoura. Geram obediência pontual, não mudança de comportamento.
A segurança rodoviária exige empatia. Exige perceber que conduzir não é apenas um ato individual, mas um ato cívico. Cada decisão ao volante afeta muito mais pessoas do que apenas quem segura o volante.
A Operação Páscoa mostrou que a guerra continua. Mas mostrou também, com brutal clareza, onde estamos a falhar.
Enquanto aceitarmos estas mortes como “normais”, continuaremos a contar vítimas e a repetir discursos vazios. A paz nas estradas não começa com mais sirenes ou mais autos. Começa quando cada um de nós decide, conscientemente, que chegar vivo é mais importante do que chegar primeiro.
E essa decisão é tomada antes de ligar o motor.