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Misericórdia – sinal de Páscoa

O Papa João Paulo II instituiu o Dia da Misericórdia no domingo da oitava da Páscoa. Fê-lo por ocasião da canonização de Faustina Kowalska (30 de abril de 2000). Mais tarde, a 30 de novembro, publicou a sua terceira encíclica dedicada à Divina Misericórdia, Dives in Misericordia (“Deus rico em misericórdia”).

Entre muitas outras recomendações, recorda “o esquecimento em que a doutrina da misericórdia tinha caído”. A mentalidade contemporânea, talvez mais do que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus da misericórdia; além disso, pretende separá-la da vida e retirar do coração humano a própria ideia de misericórdia. “A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e da técnica, nunca antes verificado na história, se tornou senhor da terra… Por este motivo, na hodierna situação da Igreja e do mundo, muitos homens e muitos ambientes, guiados por um vivo sentido de fé, voltam-se quase espontaneamente, por assim dizer, para a misericórdia de Deus” (Dives in Misericordia, 2).

Em tempo pascal, como princípio orientador de comportamentos, talvez se imponha esta consciencialização. Num contexto de guerras e de profundas perturbações sociais, torna-se urgente refletir sobre a misericórdia divina e não esquecer a necessidade da misericórdia humana no relacionamento entre pessoas, instituições e povos. Não é doutrina do passado: é, ou deve ser, um verdadeiro sinal de Páscoa. Quando é vivida, o Ressuscitado está presente e visível.

O Papa Francisco é eloquente quando afirma que “a arquitrave que sustenta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deve ser envolvida por ela… A credibilidade da Igreja passa pelo caminho do amor misericordioso e compassivo” (Misericordiae Vultus, n.º 10).


 

O Catecismo da Igreja Católica sistematizou esta doutrina nas chamadas Obras de Misericórdia. Não é demais recordá-las. São variadas as interpelações formuladas pelas obras de misericórdia corporais: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir os enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos. As espirituais têm ainda maior atualidade: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os aflitos; perdoar as ofensas; suportar com paciência as fraquezas do próximo; rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos.

Não é necessário deter-se na explicitação de cada uma destas propostas. Importa, contudo, ir um pouco mais além. O Papa Francisco sublinha que “somos chamados a dar um novo rosto às obras de misericórdia que conhecemos desde sempre” (Misericordia et Misera, 19). São tantas as situações que marcam uma sociedade que se diz igual, mas que acentua desigualdades, que necessitamos de fazer com que a misericórdia adquira, concretamente, um verdadeiro valor social. O mundo apresenta inúmeros sinais que exigem novas intervenções. O “dicionário” da misericórdia, na atualidade, sugere uma pluralidade de interrogações que nos devem inquietar. Outrora, foi fácil sistematizar em catorze realidades; hoje precisamos de olhar o mundo com o coração. Só assim descortinaremos os desafios que são lançados aos cristãos, individualmente e como comunidade.

Daí que seja muito natural que o Papa Francisco afirme que “somos chamados a fazer crescer uma cultura de misericórdia, baseada na redescoberta do encontro com os outros: uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos” (Misericordia et Misera, 20).

A Igreja tem de interpretar novos “sinais” que sejam um testemunho eloquente de quem foi tocado por um amor infinito: a misericórdia divina. Misericordiados pela bondade divina, teremos de nos tornar, também nós, sinais vivos dessa mesma misericórdia.

Se o Papa Francisco, para recordar os cinquenta anos do encerramento do Concílio Vaticano II, decretou um Ano Santo da Misericórdia (2015), hoje, situados no sexagésimo aniversário, somos convidados pelo Papa Leão XIV a revisitar os documentos conciliares. Não é inoportuno retomar a homilia do Papa Paulo VI, no encerramento do Concílio (7 de dezembro de 1965). Vale a pena uma leitura na íntegra. Cito apenas: “um amor para com os homens penetrou totalmente o Concílio”, onde a parábola do bom samaritano “foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio”. “A Igreja declarou-se quase escrava da humanidade”, servindo o homem em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades.


 

A Páscoa impele a viver e a promover a cultura da misericórdia. Ela é sinal de Páscoa: por ela, Cristo está vivo e presente na história humana.

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

18 abril 2026