Na madrugada de 13 de abril, Donald Trump publicou na Truth Social uma ilustração em que é representado segundo códigos visuais associados a Jesus Cristo. A imagem suscitou forte indignação também em setores religiosos ditos conservadores, tradicionalmente alinhados com o presidente. Em 2024, a sua base eleitoral assentava, de forma expressiva, no voto cristão, tendo sido apoiado por 56% dos católicos. A publicação foi removida pouco depois, embora, no dia 15, Trump tenha surgido abraçado a Cristo noutra imagem. Este ciclo de alegorias digitais ocorre num contexto de tensão com o Papa Leão XIV, crítico do belicismo norte-americano, e de aproximação mais vincada aos líderes evangélicos locais. De modo mais geral, a crescente instrumentalização de referências espirituais levanta uma série de questões.
O que retrata a primeira imagem gerada por inteligência artificial? No centro da composição, o presidente dos Estados Unidos inclina-se sobre um homem deitado, cujo rosto condensa a tensão da cena, entre fragilidade e súplica. O código iconográfico da indumentária (túnica branca e manto vermelho) evoca a figura do Cristo taumaturgo, materializada na imposição da mão direita sobre a cabeça, irradiando um halo de luz. Ao redor, uma enfermeira, um soldado e dois civis testemunham a epifania messiânica. Em segundo plano, a bandeira americana, a Estátua da Liberdade, o Capitólio, aviões militares e uma águia em pleno voo apresentam-se como signos ideológicos do poder imperial. Do alto, abre-se uma senda luminosa, da qual emergem figuras angélicas, a partir de um eixo vertical que investe o inquilino da Casa Branca em instância mediadora entre o céu e a terra.
Uma tal representação não nasce por geração espontânea. A figura presidencial, como garante da ordem no mundo livre, inscreve-se em décadas de retórica política e cultural, encontrando em Hollywood um dos dispositivos mais eficazes de encenação. Da expressão “eixo do mal” popularizada por George W. Bush à invocação litúrgica God bless America, passando pelo juramento presidencial sobre a Bíblia, entre muitos exemplos, o léxico político norte-americana tem-se posicionado num horizonte de elevada densidade religiosa. Longe de constituírem meros ornamentos retóricos, tais marcadores discursivos dão conta de um poder que se crê investido de uma missão de natureza providencial. Com Trump, a inflexão não reside no princípio, mas na sua intensificação e exposição. O regime de significação atinge um ponto de saturação, numa performance digital simultaneamente kitsch e transgressiva.
Não estamos face a uma simples deriva estética. Trata-se de uma dramaturgia da redenção. Ao líder já não lhe interessa só ter sido eleito democraticamente, mas afirmar-se como “o eleito” em sentido teológico. Não há adversários políticos, mas inimigos civilizacionais. O debate desliza da argumentação programática para o populismo emocional. A narrativa é pontuada por imagens, gestos e dispositivos visuais amplificados pela lógica algorítmica. Banaliza-se o sagrado para suscitar adesão cega ou repulsa visceral. É de uma guerra entre o bem e o mal que se trata doravante. Há muito que a extrema-direita mundial enveredou por esse caminho.
Em 2020, o jornal Sol publicou uma fotografia tirada na igreja de São Nicolau, em Lisboa, na qual André Ventura, com fato escuro e gravata vermelha, surge ajoelhado e com a mão junto à boca, diante de um altar com a figura de Santo António e relevos da Paixão. Na leitura de Cintra Torres (malomil.blogspot.com, 27/02/20), a densidade simbólica e propagandística da imagem em contrapicado, a composição triangular com os santos e a orientação do olhar remetem para a mediação com o divino. O autor recorda a gramática visual da célebre fotografia de John F. Kennedy, também ele em oração, no contexto da campanha presidencial de 1960. Em ambos os casos, a encenação do recolhimento íntimo materializa um dispositivo de legitimação política e de projeção da autoridade providencial. Tanto nos EUA como em Portugal, destacadas figuras da hierarquia católica vieram recentemente a público demarcar-se da extrema-direita. Resta saber se, por cá, esta nova configuração pode vir a suscitar uma certa cisão no universo crente.