Nunca poderemos esquecer que a centralidade da vida cristã, manifestada no itinerário litúrgico, se encontra na Páscoa. O Natal, como celebração da Incarnação de Cristo, marca sempre o início da caminhada de Deus com os homens, mas a plenitude da Sua missão encontra-se na Paixão, Morte e Ressurreição. Aqui está o centro. São três momentos distintos, mas sempre como preâmbulo da alegria do Domingo de Páscoa. Cristo veio para permanecer.
Esta doutrina, sempre pregada pela Igreja, nem sempre foi assimilada na vivência cristã. Agora, é reconhecida na sua centralidade logo no primeiro número do Documento Final do Sínodo. Sabemos que este encerra as conclusões das Assembleias Sinodais. O Sínodo não chegou ao fim, mas continua a acontecer nesta etapa de atuação do Documento Final.
As primeiras palavras destacam a necessidade de efetuar um “novo passo”, como tantas vezes aconteceu na história da Igreja, nesta época nova, que muitos apelidam de época de crise. “Cada novo passo na vida da Igreja é um regresso à fonte, uma experiência renovada do encontro com o Ressuscitado que os discípulos viveram no Cenáculo na noite de Páscoa.” Daí que, hoje, como no passado, a Igreja seja desafiada a este encontro com o Ressuscitado, o mesmo que os Apóstolos tiveram a graça de viver numa noite muito especial. Era uma noite para as suas vidas, mas a aurora aconteceu, e o sol do entusiasmo surgiu, percorrendo, de seguida, os caminhos do mundo, comunicando a grande novidade de que Ele está vivo.
Recordo com frequência, quando olho para este tempo que alguns apelidaram de “igrejas vazias”, as palavras do Papa Francisco, dirigidas aos universitários na Universidade Católica, por ocasião das Jornadas Mundiais da Juventude (03-08-23): “Procurai e arriscai... Sede protagonistas de uma ‘nova coreografia’... Sede coreógrafos da dança da vida”. E porquê? “Abracemos o risco de pensar que não estamos numa agonia, mas num parto; não no fim, mas no início de um grande espetáculo.”
Muitos apegam-se à ideia da agonia. A Páscoa sublinha que ela foi apenas passagem para um momento de parto. Há dores e sofrimentos. Não vemos o mundo como gostaríamos. Imaginamos que a Igreja poderia ter a vitalidade dos tempos passados. Estamos num “parto” eclesial. Há muita expectativa e sofrimento. Nem sempre compreendemos para onde a Igreja irá. Cristo Ressuscitado está a gritar, se quisermos ouvir, que venceu e que uma nova vida surgirá, que, em primeiro lugar, será para cada um de nós, como uma mãe que dá à luz, mas que depois se tornará contágio pela capacidade que temos de mostrar esta nova vida que nasce e se oferece.
Precisamos, por isso, de tornar a Páscoa o centro da liturgia, mas também o grande acontecimento diário. Para isso, o Sínodo indica-nos o modo de agir e de operar: “Somos chamados não apenas a traduzir os frutos de uma experiência espiritual pessoal em processos comunitários, mas a experimentar como a prática do mandamento novo do amor recíproco seja um lugar e uma forma do encontro com Deus.”
O “novo passo” a dar, neste momento histórico e de grandes interrogações, consiste em não desprezar o encontro pessoal com Cristo, mas reconhecer que, pela prática – e não pela teoria – do mandamento novo do amor recíproco e mútuo, aqui e agora, dentro das igrejas, mas também fora, nas famílias, movimentos e comunidades, se gera uma presença viva de Cristo. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.” (Mt 18,20)
Se este “lugar e forma de encontro com Deus” acontece em lugares concretos, precisa de ser preparado e vivido nas estradas do mundo. A Páscoa fala-nos, a nós, minhotos, de uma cruz que percorre as ruas das cidades e das aldeias. O Ressuscitado vai ao encontro, para que o “beijo da Cruz” se concretize nos mil e um encontros que vamos tendo.
Esta semana, lendo um artigo, lembrei-me de um poema que já me tinha interpelado. No autor, tem um significado direto e imediato. Habituei-me a conferir-lhe uma dimensão mais abrangente: “Em todas as ruas te encontro / em todas as ruas te perco” (Mário Cesariny, Pena Capital).
A grande novidade da Páscoa está aqui: um encontro com Ele em todas as ruas das nossas cidades e aldeias. Procurá-Lo aí, sabendo que é fácil perdê-Lo, e encher as nossas igrejas, casas e comunidades de amor recíproco.