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Desporto no Ensino Superior, números de um atraso estrutural

A recente apresentação pública do estudo da Federação Académica de Desporto Universitário (FADU), em Lisboa, trouxe dados que merecem uma reflexão séria sobre o estado do desporto no ensino superior em Portugal. Apesar de se registar um ligeiro crescimento da prática desportiva universitária, os números agora conhecidos são claros e exigem mais do que uma leitura descritiva, pois 61% das Instituições de Ensino Superior (IES) não possuem instalações desportivas próprias Este dado não representa apenas fragilidades, evidencia um atraso estrutural prolongado e uma ausência de prioridade estratégica ao longo de décadas. Ainda mais paradoxal é o facto de 87% das instituições reconhecerem a importância do desporto para a experiência académica e saúde mental dos estudantes, revelando um desfasamento evidente entre discurso e ação. 

O aparente consenso sobre a relevância do desporto contrasta com a realidade das decisões institucionais. Poderemos afirmar, com alguma margem de segurança, que mais de metade dos responsáveis pelas instituições, falharam nos últimos 50 anos, ao não integrarem de forma efetiva o desporto e a atividade física nos seus projetos educativos. Ao longo dos anos, foram liderados projetos incompletos, “coxos”, que ignoraram uma dimensão essencial da formação integral dos estudantes, mote dos países mais desenvolvidos. Importa, no entanto, não ser injusto. Existem instituições que, mesmo sem instalações próprias, procuraram soluções junto das autarquias, clubes, associações e escolas, criando oportunidades de prática para os seus estudantes e comunidade. Mas estas soluções, embora meritórias, são frequentemente limitadas, pois dependem de disponibilidade externa, restringem horários e não garantem uma oferta estável e adequada à procura crescente e latente. Não substituem uma política estruturada nem resolvem o problema de fundo.

A verdade é que se continua a falhar num aspeto básico, planear as infraestruturas desportivas em função das necessidades reais de prática e do potencial de procura. Se hoje questionássemos quantas universidades e politécnicos fizeram este exercício de forma rigorosa como se impõe nestas instituições, cruzando dados de participação, perfil dos estudantes, modalidades, desejos e hábitos de prática, motivos de não prática, etc., é provável que os resultados fossem, no mínimo, preocupantes. Ainda assim, há sinais positivos. A literacia motora, o entendimento do valor do desporto e a consciência do seu impacto na saúde, bem-estar e desempenho académico parecem estar a crescer entre os responsáveis institucionais. Este é um caminho que deve ser consolidado. O desporto não é um complemento opcional da vida académica, é um pilar essencial da formação, com impacto direto na saúde mental, na integração social e na construção de hábitos para a vida.

O desafio agora é claro, passar do reconhecimento à ação. Integrar o desporto nos modelos de financiamento, planear infraestruturas com base em necessidades reais, investir em recursos humanos qualificados e garantir que a prática desportiva competitiva ou recreativa é acessível a todos os estudantes. Mais do que uma questão setorial, trata-se de uma escolha de futuro. Um país que valoriza o desporto nas suas instituições de ensino superior está a investir na saúde, na autoestima, na mudança cultural e resiliência das novas gerações. E isso não é um detalhe, é uma condição para termos uma sociedade mais equilibrada, mais preparada e, sobretudo, melhor. 

Fica ainda uma questão para refletir. Se todos sabemos que a procura de instalações desportivas está diretamente ligada à proximidade, e que tudo o que ultrapassa cerca de 10 minutos já cria resistência à adesão, quantos estudantes estarão hoje, na prática, afastados do desporto? Basta fazer contas!... e… começar a planear a oferta de instalações. 

Fernando Parente

Fernando Parente

27 março 2026