Fala-se do mercado com uma solenidade quase litúrgica. O mercado sabe, o mercado corrige, o mercado ajusta e o mercado recompensa. E, se for preciso, o mercado também absolve. Há, nesta confiança, qualquer coisa de enternecedor: depois de séculos a desconfiar de ídolos visíveis, acabámos por nos ajoelhar diante de um invisível, tanto mais venerado quanto mais abstrato. É uma divindade discreta, sem rosto e sem voz, mas com um raro talento para decidir o preço das coisas e, pouco a pouco, o valor das pessoas.
O traço mais notável desta nova realidade económica não está apenas na sua força, mas na sua delicadeza. O mercado já não se apresenta como um poder bruto. Prefere insinuar-se como evidência. Não impõe: persuade. Não agride: organiza. Não domina: otimiza. Vai-nos convencendo, com admirável mansidão, de que a vida humana se compreende melhor quando traduzida em desempenho, utilidade, vantagem, incentivo e retorno. O que não entra neste vocabulário começa a parecer sentimental, ineficiente ou suspeitamente inútil.
Talvez a sua obra mais subtil tenha sido a deslocação do centro da vida comum. Durante muito tempo, o trabalho conservava uma espessura social: trabalhar era cooperar, construir, partilhar fadiga e criar mundo com outros. Mas, quando o eixo se desloca do trabalho para o consumo, a comunidade cede lugar ao indivíduo. O mercado deixa de ser espaço de encontro e torna-se corredor de satisfações privadas. Onde antes ainda circulavam palavras, resta agora a perfeição asséptica da compra sem rosto: o objeto chega, o desejo é servido, e nenhum ser humano perturba a intimidade entre o consumidor e a mercadoria. É difícil imaginar triunfo mais requintado da solidão.
Tudo isto, naturalmente, nos é apresentado como libertação. Fomos libertados da demora, da dependência, da espera, da gratuidade e até, em certa medida, da presença concreta do outro. A boa vida parece resumir-se à fluidez do acesso: tudo disponível, tudo imediato e tudo ajustado à medida da preferência individual. E assim, sem grande alarido, deixámos de aspirar a uma sociedade onde todos possam trabalhar com dignidade para começar a sonhar com uma sociedade onde todos possam consumir sem interrupção. É uma mutação antropológica de rara elegância: substitui-se a vocação pela aquisição, a pertença pela conveniência e a construção pelo usufruto. O altar permanece, apenas mudou o culto.
Mas o mais fino, talvez, esteja no modo como esta lógica se apropria das grandes palavras humanas. Fala de reconhecimento, de comunidade, de paixão, de propósito e de realização. Convida-se a pessoa a investir-se por inteiro, a oferecer não apenas o seu trabalho, mas a sua energia interior, o seu ideal, a sua imaginação, quase a sua alma. Contudo, quando chega o momento da verdadeira reciprocidade, regressa-se serenamente ao território modesto do contrato, do objetivo, da função e do indicador. Pede-se entrega como se se tratasse de uma vocação, retribui-se como se bastasse um procedimento. A linguagem é alta, mas o teto é baixo. E não tardam a surgir as fraturas: o entusiasmo exaure-se, a frustração instala-se e o esgotamento aparece como epílogo previsível de uma promessa que nunca poderia cumprir-se.
Há nisto uma ironia amarga. As palavras maiores da existência – liberdade, fraternidade, reconhecimento e comunidade – são convocadas, não para abrir a vida, mas para a administrar. São reduzidas, domesticadas e instrumentalizadas. Perdem densidade e tornam-se peças de uma pedagogia da adesão. Quando as palavras decisivas deixam de servir a verdade da experiência humana e passam a servir exclusivamente a lógica do lucro, não se engrandecem: empobrecem. Continuam sonoras, mas já não respiram.
Por isso, ironizar sobre as “maldades” do mercado não é ingenuidade antieconómica nem nostalgia romântica. É apenas um gesto de lucidez. O problema não está na existência do mercado, mas na sua pretensão imperial. Quando um mecanismo útil se comporta como critério último da realidade, deixa de ser instrumento e transforma-se em metafísica. E talvez a sua maior maldade seja precisamente esta: nunca se apresentar como ídolo, preferindo a figura modesta da neutralidade. Não exige incenso, basta-lhe consenso. Não pede fé, basta-lhe adesão prática. Mas, como todos os ídolos bem-sucedidos, promete muito, ocupa tudo e devolve menos humanidade do que aquela que encontrou.